quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Porque choras?


Poderei um dia voltar a cometer o pecado de te querer? Poderei lutar contra mim própria?

Por longe que estejas, nunca foste pó.

O sorriso que tantas vezes me desarmou. O corpo que conheço como um mapa do tesouro por mim desenhado.

Porque choro eu?

Somos escravos de um destino que não traçámos, de um amor que não quisemos.

Para onde foi todo o desejo que sentíamos?

Deste-me tanto e tanto me tiraste…será o balanço a fazer o de que ainda existes?!

Existes na memória da minha pele, não já na minha cabeça.

Porque choro eu?

Ver-te nunca é uma digestão fácil de fazer, mas antes uma refeição farta em tarde de calor alentejana.

Não matas, mas ainda móis.

Como a saudade desses tempos intensamente leves que eram vividos com a beleza de um horizonte ainda longínquo. Tão longínquo.

Porque choram as saudades?

Da simplicidade tão difícil de alcançar na idade dos porquês.

Quando ainda não sabíamos o que a vida nos reservava, enquanto discutíamos por tudo o que hoje já não importa.

Andámos tantas vezes em círculos loucos de aventuras sem sentido…

Porque choraste tu?

Esperando que, como sempre, o círculo se fechasse e nos empurrasse novamente para os braços um do outro.

Que o ímpeto de nos termos se sobrepusesse a toda a dor do nosso afastamento.

Ainda lutaste, mesmo depois de eu ter desistido. Como se tudo fosse possível.

Não grites. Não chores.

Eu sei, eu sei, desta vez o círculo não se fechou.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Um do outro


Foi aí que te vi. Nesse momento terno em que não te preocupaste com o mundo em redor. Quando te entregaste na fragilidade de uma paixão inevitável. Não mais fingiste que não te importavas com o rumo imprimido à nossa relação e deixaste que as coisas fluíssem. O ritmo alucinante do teu toque dizia publicamente que me querias. Deixaste de lutar contra as nossas evidências históricas e ficou claro que iríamos permitir-nos um pouco mais. Estávamos a redescobrir-nos como duas crianças que terminam a primária e estão ansiosas pelo novo ciclo e a novidade de uma turma por conhecer.

Começámos a aprender uma outra linguagem para comunicarmos entre nós. Depressa um pouco mais se tornou muito. Ensinaste-me todos os teus truques, as tuas expressões de alegria e de desespero. Eu ensinei-te muitos dos meus 1001 sorrisos sem no entanto terminar com o mistério. Aprendemos a ler o olhar um do outro e a saber o que o outro sentiria mesmo antes de suceder. Fazias-me querer ser melhor a cada dia, não que eu não fosse suficiente, mas porque podia ser sublime. Eu não te deixava cair na rotina e contrariava as tuas tentativas de acomodação ao ritmo da vida. Era uma dança constante, só mudava a música que nos acompanhava.

Juntos fazíamos, sem dúvida, o mundo girar, tornando-o melhor. Pelo menos, acreditávamos nisso. Valia a pena acordar todos os dias e levantar o estore. Fizesse chuva ou fizesse sol, tudo era vivido na intensidade de um sorriso, como se o amanhã fosse uma verdadeira dádiva. E era.

Até àquele dia. O dia em que, pela primeira vez, lá fora o sol não nasceu e a escuridão se instalou. Nesse dia o mundo parou irremediavelmente. Não esse, mas o nosso. O nosso mundo deixou, para sempre, de girar. Tu foste embora, sem apelo nem aviso. Deixaste-me descalça num mundo cheio de espinhos, sem a menor noção de caminho. Não mais te vi, não mais te senti ou cheirei. Vejo-te sempre que fecho os olhos, porque em mim continuarás. Mas não é a mesma coisa, jamais será…

Dava tudo por mais um dia nesse mundo encantado contigo.

Não sei o que faria, nem tão pouco o que diria. Mas sei que, no fim do dia, não te deixaria ir sozinho. E se não fossemos juntos, então dir-te-ia para me esperares do outro lado, que o rio é escuro e profundo, mas não há nada que não se ultrapasse. Sei que me dirias que não, assim como tu sabes que eu o faria na mesma.

E é disso que sinto falta, da minha outra metade, da qual me separaram nessa outra vida.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cor cinza


Tantas vezes pensamos que o mais difícil é falar e confessar a traição ou a mentira; quando afinal isso é o ato libertador, o que transporta uma parte do peso da culpa para o outro. Por vezes, é mais difícil calar e viver a vida com a sombra constante do erro que se cometeu e guardar a dor só para si.

Mas quem sou eu para julgar?! Quem sou eu para ver os outros a preto e branco se a vida, essa, vive-se no cinzento? Não o cinzento da tristeza inerte ou da ausência de emoção, mas o cinzento das almas humanas que teimam em querer saltar do branco para o preto como se a gravidade fosse apenas uma piada. Porque é que afinal ansiamos tanto por chegar ao branco quando estamos no preto, e vice-versa, se é no cinzento que a vida acontece? É no cinzento que caímos redondos após um salto ambicioso, mas é também aí que nos levantamos mais fortes do que dantes. É no cinzento que estão os seres pensantes e não apenas os autómatos. É aqui que nos apaixonamos por todos os epítetos sobre os quais as mães nos avisaram. É no cinzento que estamos constantemente a gravar cenas sem realizador ou assistentes de produção. Aqui não há certo ou errado, nem verdade ou mentira. Aqui há apenas a perceção de cada um sobre cada uma destas coisas.

O cinzento encerra em si a falta de clareza do branco ou do preto, mas em compensação, permite a beleza de viver em harmonia com a imperfeição do Homem, de a amar e desejar na sua plenitude e com toda a intensidade.

Assim farei


"Se ele lhe pudesse deixar uma mensagem, qual é que seria?"

Silêncio.

"Provavelmente diria: não deixes nada por viver!"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O dissecar de um beijo (ou mais do que um beijo II)

Perguntaram-me qual foi o melhor beijo que experimentei. Não tive dificuldades em escolher, nem tão pouco quaisquer dúvidas. Não foi o melhor por ser o primeiro, nem por ser o último. Foi simplesmente aquele. Nem sequer foi um beijo que dei, foi-me dado.
O sítio era feio. Uma rua suja e perpendicular, com lixo por recolher, acima do bar escolhido por não ser nenhum dos nossos. Era território neutro, onde ninguém nos conhecia. Perguntaste porque é que eu tinha sempre tanta pressa e disseste que me ias ensinar o que era um beijo... sem pressas. Acedendo, encostei-me levemente à parede e coloquei as mãos atrás das costas, como quem estava recetivo ao que quer que viesse a seguir. Sem me tocar, aproximaste-te, mas não demasiado. Aproximaste os teus lábios dos meus, de tal modo que sentia a tua respiração. O teu respirar marcava o ritmo do meu coração e ainda eras só um desejo. Aí o tempo deixou de contar. Suavemente, depois de segundos que foram horas, deixaste os teus lábios acariciarem os meus. Aí comecei a voar. Mexias lentamente os lábios contra os meus enquanto enlouquecias os meus poros. Imóvel de desejo, lá estava eu. Aos poucos decidiste começar a abrir os lábios e deixar a energia fluir. Era tanta a energia contida nos nossos corpos que poderíamos flutuar. Beijaste-me lenta e demoradamente por horas sem fim, que podem bem ter sido meros segundos, já que perdera a noção do tempo e do espaço. Sentia-te quente através da tua língua e já não pensava. Os movimentos lentos da forma como me beijavas inundaram-me de energia eletrizante. Todas as minhas extremidades estavam alerta e queriam mais. Já tinha viajado para um mundo distante, guiada pelos teus sentidos. As tuas mãos não me tocaram uma única vez, porém, sentia-me inundada de ti. Já estava longe, num mar de prazer que me fazia esquecer o sítio feio e sujo em que ainda estávamos…
Terminaste quando quiseste e nem chegaste a tocar-me. Fisicamente diga-se – pois tocaste a minha alma com a energia do teu beijo lento de uma forma nunca antes experimentada. Desde esse dia, jamais esqueci aquele beijo dado, ao qual nenhum outro foi ainda sequer capaz de se aproximar.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

E cai a ficha...


Há coisas que realmente importam. E depois há as outras.

Não importa os anos que estivemos afastados, mas apenas os que estivemos juntos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Hino ao não desperdício

É mais difícil esquecer o beijo que não se deu.
Porque o beijo que se deu, sentiu-se. E passou.
O beijo que não se deu, pensou-se. E perdurou.

 

Que nos seja leve


A lonjura da tua voz não afasta a proximidade dos meus pensamentos. Sai já que eu não aguento nem mais um minuto desse cheiro ausente. Busco nas dezenas de caras o teu rosto inquietante. Sorrio na serenidade de não te saber perto.
Na encruzilhada do caminho a minha placa não tinha o mesmo nome da tua. Que nos seja leve a incerteza do destino. Da decisão tomada. E que saibamos ser felizes quando nada mais há a fazer. Até um dia...
 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mais do que...


Noite dentro no bairro do costume, nesse dia totalmente novo. Dobraram a esquina de uma perpendicular escura, suja e gasta pelo tempo. "Porque tens tanta pressa?" Perguntou ele. "Vou ensinar-te a não teres pressa." disse, encostando-a à parede sem esperar pela resposta.
Colocando as mãos atrás das costas, ela sorriu num gesto condescendente, como quem aceita os ensinamentos que está prestes a receber.

Ele inclinou-se sobre ela e, com as mãos apoiadas na parede atrás dela, foi-se aproximando lentamente. Tão lentamente que ela sentia o respirar dele sem sentir ainda o toque do seu corpo. Ouviram o respirar um do outro durante algum tempo – ele provocava-a com a espera; ela deixou-se ir, viajando sem sair do sítio. A energia dos corpos já se sentia e ainda nem se tinham tocado. A temperatura das almas subia vertiginosamente e parecia que o coração lhe ia saltar do peito. Mas sobreviveu...e, mais do que isso, viveu intensamente aquele momento.


….um beijo

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Tudo ou nada

Ela saiu do táxi, chegada do Europa, e tirou as chaves da mala. Sentado à porta do prédio lá estava ele. A quem chamara tantas coisas. A quem desejara e odiara num ápice. Ele esperava-a há horas. "O que é que estás aqui a fazer?", era a pergunta óbvia. "Preciso de falar contigo. De te ver."

Ela estava um misto de estupefacta e assustada. Sob um estado que já não era bom... "Só podes estar doido. Em delírio!", disse-lhe.

"Sai da frente." O tom era seco e assertivo.

Ele afastou-se ligeiramente, mas, deliberadamente, não o suficiente para ela poder passar. "Eu sei que estás fodida comigo. Eu sei. Mas vais dizer que não sentes nada, que eu não estou a sentir nada agora?!"
Ela tremeu. A energia dele não lhe era indiferente. Ainda não. O olhar, o sorriso. Ela podia muito bem dizer-lhe "Claro que eu sinto alguma coisa. Eu quero-te. Quero-te muito!", que seria tudo verdade.

Mas era o momento do tudo ou nada.
E ela teve de lhe repetir "Sai. Desaparece. Não te quero voltar a ver! Achei que tinha sido clara... Faz o favor de esquecer que eu existo!!"

Empurrou-o enquanto abria a porta pesada, de ferro, da sua entrada. Ele ainda segurou a porta com o braço e ela fez-lhe o último olhar decisivo antes de forçar o fecho.

Em direção ao elevador, ainda ia atordoada. "Mas o que é que este tipo estava aqui a fazer?! Ele achava mesmo que eu lhe ia dizer que sim?! Depois de tudo?!"

Enfim... Claramente ele precisava disto. E provavelmente ela também.
Entrou no elevador e carregou para subir. Meteu a chave à porta. Ia finalmente entrar em casa depois de uma noite que se tornara demasiado longa. Com o fechar da porta encerraria, simbolicamente, muito mais do que um dia.

Respirou fundo. Inspirou e expirou lentamente. Ficou um minuto a tomar consciência de si própria. Afinal, no momento do "tudo ou nada" ela escolheu o tudo. Sim, ela só queria ter o tudo. Nada mais lhe servia. E podia agora dormir descansada, na certeza de, mais uma vez, ter tomado a decisão certa.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ilusão


Gagueja a noite. Estremece a fala. Treme antes de expulsar as palavras que sabe difíceis. Não difíceis. Dolorosas. Mas sabe que não tem outra hipótese. Ela não lhe dará outra hipótese.

Acompanham-se um ao outro por entre lugares que tão bem conhecem. O caminho, esse, é novo. Começou agora. É breve o segundo que medeia o até amanhã alheio e o segundo em que ele avança. Em direcção ao tabu e sem o atropelar, demonstra, pela primeira vez, desejo de o quebrar. O caminho era longo. O tempo não era infinito. Ela já estava cansada. Cansada de esperar. Deu-lhe até ao fim do caminho. Andaram, mas apenas se seguiu o silêncio. Ela sentiu-se desiludida. Jamais falaria, pensou. Jamais explicaria. Prestes estava a conformar-se que, afinal, nunca saberia. E assim foi. A cobardia lúcida e a confusão (também) aparente não permitiriam.

Último cigarro. Era o prazo. Não falas?! Não queres falar?! Chega. Não vou esperar mais.

Adeus.

Subiu. Vestiu o pijama. Guardou para si o que no fim de contas não era nada. Pura e simplesmente nada.

Em leve alvoroço interior, não teve tempo de acalmar. O toque súbito do telemóvel fê-la despertar do automatismo dos pensamentos profundos.

Desce. Por favor. Preciso de te dizer.

Ela acedeu. Vestiu-se rápido. Desceu. Ela desejava saber. Não, compreender.

Ele voltou a gaguejar. A sussurrar minimamente por entre meias palavras. A fracassar.

Ela voltou a subir. Era uma perda de tempo.

Já bastante incomodada, tentou esquecer algo que não poderia entender. Novo toque. E voltou a tocar. Continuamente.

Agora já não pediu, implorou que descesse. Mendigou por uma derradeira oportunidade, fazendo a promessa de que falaria. Mas falaria de quê?! Porquê?! A intensidade e a demência da situação já não a deixavam pensar claro. Estava exausta de tanta loucura. Mas que fazer?!! A voz do outro lado deu-lhe pena. Ouvia o desespero, sentia-o a tremer. Ela própria já tremia de tamanha ansiedade. Não iria. Iria?! Não será pior a dúvida? Ai…

O elevador parou novamente no rés-do-chão. Não tinha esperança que ele falasse, apesar das promessas. Foi por descargo da sua própria consciência.

Teve medo então. Medo de fraquejar nas suas certezas, medo da atmosfera poderosíssima. Ele avançou. Ela recuou. Encurralou-a contra a parede. Ela ficou imóvel de medo. Ele não proferia palavras com nexo, mas a energia era avassaladora. A energia saía-lhe dos poros. Era emoção feroz, coração aos pulos. Fechou os olhos por momentos. Pelo segundo do pecado. Sentiu o leve toque dos seus lábios, que repeliu.

Já tinha dito que não. Já tinha tentado explicar. Convencer. Convencer-se. Ela não poderia deixar de recordar a si própria o quão rápido teria de fugir daquela situação. Já tinha ido longe demais. Ela não abdicaria dos seus princípios. Preferia poder viver consigo própria.

Lutando ferozmente contra os seus instintos, os desejos mais íntimos da carne, resistiu a entregar-se à pura loucura que a esperava. Renegou o prazer para poder fazer o que estava correcto. Perante o choro intermitente daquele homem, que implorava por uma oportunidade, disse peremptoriamente que não.

Eu quero estar contigo. Não é hoje, é todos os dias da minha vida, em todo o lado, fazer tudo!

Isto é real, não é loucura”, tremia chorando, como se o mundo já não existisse.

E ela tentou desesperadamente acreditar nisso.

E por acreditar…empurrou-o para fora do elevador. “Não pode ser. Não vai acontecer. Eu estou com uma pessoa, tu estás com uma pessoa. Nós não podemos estar juntos.

Fechou a porta e carregou no botão do seu andar.

Apesar de tudo, jamais ela disse que não sentia o mesmo que ele ou que não tinha vontade de experimentar. O dilema era outro… Afinal, valerá a pena trocar uma emoção ainda que fugaz pela seriedade moral que ninguém reconhece?!

Para seu conforto, ela diz a si mesma, ano após ano, que fez bem… que tudo aquilo não passou de uma “ilusão”. Será?!?

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sofrimento sereno

Os teus olhos são como um reflexo, vidrado, de mim.

São o espelho da dor que sinto por te saber preso em ti.

Com os punhos do meu desespero, esmurro a parede que erigiste,

Não para mim, mas para ti

Como defesa infindável de um ser que não sabe mais nadar

Fora das águas do seu sofrimento, das ondas da sua loucura.

É o mar do meu descontentamento;

Mas antes, antes de tudo

É o vale desse tormento

Em que nos encontramos e nos desencontramos.

Ano após ano, vida após vida.

Para no fim olharmos um para o outro

E no reflexo já baço, dos olhos já cansados,

Docemente entrelaçarmos sorrisos

Recordando o sabor longínquo das nossas bocas

E assentirmos levemente, como quem sabe, que sim.

domingo, 28 de setembro de 2014

Receita para o adeus

Não preciso ver-te para saber que te desejo.
Mas preciso ter-te para não mais te ver.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Saudades dos teus 10 minutos


Saudades de te ter a 10 minutos. De te ouvir dizer que saíste agora do banho, sabendo que ainda estás na cama. Saudades de te ouvir rir, sincera e despreocupadamente. Aquele riso que me enche de energia e me faz levantar e estar pronta. Saudades de sermos só nós no nosso mundo, sem contas para prestar. Saudades de vestir o teu casaco. Dos pregos que dizes serem os melhores. Saudades de partilhar uma mini contigo. Saudades de uma noite louca. Saudades do teu acordar. Da tua mão a afastar o meu cabelo, de sentir o meu perfume através de ti. Quero poder deitar-me outra vez no teu colo e ouvir-te através do silêncio. Quero sentir a nossa energia sem que nos mexamos. Saudades de te ter ao meu lado. Saudades de transformar o desejo em realidade e de te tocar. Saudades de recordar contigo um sem fim de histórias...as nossas. Mas saudades maiores de criar contigo novas lembranças, para poder voltar a ter saudades.

Não demores a voltar, está bem?

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Veneno


És veneno. Veneno que queima a minha alma. Aquece primeiro, enquanto o diabo se ri. Incendeia a água, o céu abre-se e chora. E tu ris-te. És a droga que eu não tomo mas que percorre as minhas veias como mil riscos mandados. Bombeias o meu coração como a maquinaria que oxalá nunca tenha. Respiro o som do teu olhar como se do ar mais puro se tratasse. Fazes-me desejar os botões da tua camisa, o fecho das tuas calças. Desejo-os tanto que os arranco só de te olhar. Luto contra a minha falta de força em te resistir. És o perigo que deixo que me aconchegue. És o errado mais certo que alguém inventou. De onde é que tu saíste, porque atormentas a minha alma já delirante?! A ideia do teu toque enlouquece a minha pele sem qualquer aviso. O calor que os nossos corpos geram antes mesmo de se terem, incendeia as paredes em volta. Tocas-me e eu esqueço o tempo, o espaço e o amanhã. Ensinas-me o beijo que não quero aprender e esqueço o certo e o errado. Nos teus braços não distingo o bem do mal. Só sei que estou viva e que não quero acordar nunca do sonho. São segundos perfeitos. Momentos de prazer impagáveis que não se trocam por nada. De onde saíste tu, diabo na terra?! Destruímos o cenário em volta. O tapete ganha vida e voa. A mesa dança. O sofá canta para nós. A tua voz acalma o meu espírito. Fazes o sorriso que, de tão sincero, chega a ser maroto. És como uma praga que não consigo extinguir. Vai-te embora e muda de mundo! Este é pequeno de mais para nós os dois. É a única salvação para o nosso pecado. Faz por mim o que eu não consigo sozinha. Levarei comigo o teu doce sabor para o outro lado. Chegarei com um sorriso e encontrar-te-ei. É uma promessa. Aí beberei o teu veneno sem culpa, como o vinho que partilhámos no caminho. Aí aqueceremos o único sítio onde não sentiremos calor.

Até lá... Fica apenas a certeza de que arderemos no inferno da lembrança um do outro. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Reencontros

Foi a leveza que me conquistou. A sinceridade de um olhar sem medo... atraiu-me como água num deserto. Tanto que estive submersa num mar profundo, tanto tempo à deriva sem rumo. Lá estavas tu de sorriso leve e gargalhada fácil para me trazeres à tona por um instante. Duradouro pela marca que em mim deixaste. Curto pelo sabor doce que por pouco tempo experimentei.

Já não sei quando dei a última gargalhada assim. O que chorei... Por ele, pelo outro, pelo de sempre.  O que ficou por dizer a quem partiu antes do tempo. O que sofri por não sentir ou por sentir de mais.

Naquele instante contigo, por entre beijos esquivos e abraços apertados, gargalhadas verdadeiras e sorrisos sedutores, lá estava eu outra vez. Aquela de quem eu gosto. A que tem uma alegria sem fim de tão contagiante, a que é otimista por princípio, a que acredita que tudo corre bem, a que confia no destino, a que ama a vida.

Nesses disparates sem fim e jogos despreocupados, no (des)pudor de um encontro ocasional e furtivo, lá estava eu em ti e tu em mim.

Sorrindo, disseste que parecia que me conhecias há muito tempo. Quem sabe o tempo...
Sorrindo, escrevo que nessa noite me reencontrei em ti.
Se veio para ficar...
Talvez um dia o saiba.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

A hora da despedida


No caminhar dos passos sobre as pedras da calçada senti que fora a última vez. Como um vazio por saber que era uma despedida, o encerrar de um ciclo. Preferia estar enganada e ter hoje mil oportunidades para o contrariar. Com a roupa de ontem, a cara de hoje e os óculos do outro iniciei o caminho de volta - e sem volta - enquanto te insultava por escrito.


Se tu soubesses… acredito que nada farias diferente. E se eu soubesse, teria feito algo diferente?

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Travessia...


Hoje sinto um deserto em mim. Não que eu saiba o que é o deserto ou que já tenha estado num. Mas como um dos vários significados atribuídos à palavra, hoje é esta palavra que define o meu estado de espírito. "Ermo, despovoado, solitário" é o lugar em que habito desde há muito. E esse muito é tempo a mais.

Poderia ser também "vazio" o termo escolhido, enquanto matéria à qual o conteúdo foi retirado. Mas "deserto" tem em si a ideia de travessia, que "vazio" não tem. Acredito que a minha alma não ficou deserta, mas atravessa um deserto. Seco de emoções, árido de afetos. Como se eu já tivesse esgotado tudo o que pudesse sentir. No que efetivamente senti e no que deixei por sentir. Como se já não fosse capaz de sentir mais nada de bom, de leve, de esperançoso. Vivendo apenas como um autómato que reconhece as funções a desempenhar, as tarefas a cumprir. Assim vivo todos os dias, sem qualquer sentido de caminho. Antes parecia tão fácil estar alegre e contente, resplandecente de luz. Algo que antes era tão natural agora parece tão difícil de alcançar. Nada nos é garantido afinal. Podemos perder tanto em tão pouco tempo... Como uma luz que se apaga na escuridão. Escuridão de uma noite fria rodeada de areia sem fim. Sem motivo, avaria ou razão aparente. Apaga-se quando mais se precisa dela. Para deixar um vazio a preencher o lugar outrora quente e dourado de uma alma cheia de luz.

Hoje estou deserta. De mim, de ti, de nós. De tudo o que foi, tudo o que não foi e o que não chegou a ser. E do que já não poderá ser. Deserta de emoções e de afetos. Numa travessia só minha... que eu não escolhi, mas que também não evitei que acontecesse.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O poder do beijo


Não digas mais nada. A noite já não precisa disso, de tão perfeita que foi. Eu não preciso disso. Nem de sinos, balões ou serpentinas. Preciso só que me beijes já, como se não houvesse mais nada no mundo que importasse. Como se este fosse o único motivo pelo qual a terra ainda gira. Beija-me já ou terei de te beijar eu. Estes segundos de espera estão a deixar-me louca, como quem circula sem travões em reta de autoestrada. Sem limpa para-brisas em noite de tempestade. Faz alguma coisa já ou não respondo por mim. Mais um minuto é tempo de sofrimento infinito. Os teus lábios nos meus é a única ideia que povoa a minha mente. O meu corpo. Sem espaço para mais nada. Como um muro intransponível que se depara no nosso caminho. Nada passa para além dele. Eu sem ti, sem o teu beijo, não passo para além. Então porque esperas? Esquece o minuto que se segue e eterniza este segundo em mim, transformando a promessa de beijo no beijo sentido que a noite envolveu desde o início.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Imobilidade

É uma consequência, um efeito e, simultaneamente, um defeito da natureza humana. Esse fantasma que paira sobre os mais ociosos ou, simplesmente, desgostosos. Quando nos encontramos perdidos tendemos a pontapear as pedrinhas que deixámos a sinalizar o caminho. Esse caminho que agora pode já não ter volta.

O ser humano, confrontado com uma decisão importante que deve tomar, hesita. Todos os pontos de viragem representam mudanças que pela sua mera definição são, sempre, capazes de nos angustiar. E se não é a angústia, é a ansiedade de estarmos conscientes de que estamos a procrastinar. Não porque não queremos, não porque não nos apetece, mas porque não somos capazes. Jamais seremos capazes de nos lançar despojada e autonomamente para a frente de uma batalha que sabemos estar perdida. Mas perdida ou não, é um combate necessário, é a luta o verdadeiro objectivo e não o seu resultado. E contra o quê verdadeiramente lutaremos nós?

Lutamos contra o nosso medo de mudar, de imprimir na nossa vida uma mudança de página ou, até, de guião. Duro é o caminho através do qual escrevemos e deixamos que escrevam o nosso destino. Porém é razão de força e necessidade não nos deixarmos escorregar pelo ralo do lavatório da vida. Ultrapassar o nosso próprio obstáculo – a petrificação.

Cristalizamos em nós o medo e acreditamos que não vale mais a pena acreditar. Somos o nosso maior inimigo depois da conspiração que julgamos o mundo tecer contra nós. Desaprendemos a pedir ajuda e um dia, quando mais dela necessitamos, ficamos imóveis na nossa incapacidade de acção. Uma, duas, três, até que a mesma se torna crónica. Como uma verdadeira doença, que os medicamentos não curam; já só evitam a chegada da morte.
 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Banalidades ou não...

"Stop getting involved in relationships for the wrong reasons. Relationships must be chosen wisely.  It’s better to be alone than to be in bad company.  There’s no need to rush.  If something is meant to be, it will happen – in the right time, with the right person, and for the best reason. Fall in love when you’re ready, not when you’re lonely."


(Para a minha querida M.)

Stop trying to hold onto the past...


...you can’t start the next chapter of your life if you keep re-reading your last one.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Purgatório das almas sem amor

Com o passar dos dias a angústia por não te ver ficou mais leve; a ansiedade para te ver ficou mais doce. Ontem tiravas-me o fôlego num pensamento; hoje já não assustas o meu ser. O medo da incerteza venceu. Provavelmente foi isso.

Tanto que poderia ter sido o nosso caminho, por entre ruas sem nome, sobre pedras brilhantes de calor, sob um céu azul de maresia. Mas não fomos longe, não chegámos ao início dessa rua. Ficámos ainda na praceta velha e sorumbática, recheada de prédios com a tinta desmaiada e a estalar. Um local onde o cheiro a urina da noite anterior e os copos largados no chão das beatas não deixam dúvidas da sujidade em que nos movemos. O sítio onde ficámos presos, sem que nada verdadeiramente nos segurasse. Uma espécie de purgatório das almas onde ficam aqueles que deixaram passar a oportunidade de se entregarem. De amarem. Secos e sós lá ficámos sem amor. E pior... Sendo obrigados a vermo-nos todos os dias, mudos permanecemos.

A incerteza de um dia tornou-se afinal a certeza de uma vida que podia ter sido e não foi. O medo de ser feliz venceu-nos... E a questão que se coloca é: valerá a pena esta derrota?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Sonho

Podemos esquecer, desviar o pensamento, encontrar uma distracção. Até podemos fazer um esforço para não pensar, proibirmo-nos de o fazer. Mas o sonho não se pode evitar. É um espaço nosso, dir-se-ia só nosso…, mas susceptível de ser assaltado pelos nossos desejos reprimidos, aqueles que não conhecíamos ou que, em tempos, quisemos esquecer.

Um dia acontece, somos surpreendidos pela visão do que poderia ter sido, do que gostaríamos que tivesse sido, daquilo que queríamos que fosse. E durante umas horas, o sonho ganha vida própria….e a mente viaja.

De entre todos os errados no mundo, tu és sem dúvida o mais certo. Agora que te foste, percebo que não deverias ter ido. Por entre guerras inúteis e jogos vazios de sentido, perdemo-nos um ao outro. No medo de alguém ceder, não soubemos dizer o que realmente sentíamos. Eu não soube pôr em gestos o contrário dos meus actos. Eu não soube traduzir em palavras a verdade dos meus sentimentos. Acreditando que o destino faria tudo por nós, como havia feito até à data, deixei-me acomodar. Fiquei simplesmente à espera do dia em que tu dirias exactamente aquilo que eu queria ouvir, que eu esperava ouvir.

Fiquei, segura e alegremente, à espera que tu cedesses a este braço de ferro que criámos e te declarasses. Esperei ouvir a concretização do “fomos feitos um para o outro” no “fica comigo. Todos os dias. Sempre!”. Enfim, fiquei à espera que fizesses tudo…

Passado o momento, agora, não tenho nada, não há nada…

Resta apenas a recordação do teu toque desafiador, do teu abraço terno, do teu beijo sentido. Fica a lembrança da tua timidez sincera, da tua entrega ímpar, da tua fragilidade não declarada…

Fica, afinal, a recordação de quem tu não és.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O banco do outro lado da rua

Histórias que ficam por contar, de uma cidade senhora. Porta a porta, ficou tanto por dizer. Uns que sobem, outros que descem. Por entre os desencontros dos corpos, estão as almas que se perdem.
Pedra a pedra, pedra sobre pedra, sob o elétrico grafitado do desejo. O desejo que encontra o seu par quando a noite se instala, dona de um sorriso só seu. Hoje não chora. Hoje as lágrimas não correm por entre as caras conhecidas. Como sempre, a inclinação marca o passo. Em direção ao destino de cada um. Uns sobem, outros descem. Enquanto observamos a vida e esperamos sem pressa no banco de madeira inclinado. Pela hora certa. A hora em que ele chega e nos abre a porta.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Lutar em vão

3 da manhã. Não estou. Para de tocar. Não vou abrir. Pára de ligar. Pára. Nem que ameaces que não vais voltar. Sai. Chega. Deixa-me de vez.

Fraquejo. Hoje é a ultima vez. Cedo. Abro a porta, deixando-a entreaberta. Porquê? Pergunto.

A resposta não chega sob a forma de palavras. Empurras-me com o olhar. Desejo o teu toque. Fervo. Ardo. Incendeias-me. Obedeço às ordens do teu corpo, espalhamos a paixão pelo tapete. O poder de pensar em sentir os teus lábios nos meus tira-me o chão. Arrancas os botões que já não tinha. Puxas as calças já soltas. Empurramos a mesa, não chegamos à cama. Partem-se os copos que sobraram da noite. Nada nos pára. O mundo já parou. Já não roda. Tu dentro de mim fez o mundo parar. Vezes sem conta. Hoje, como ontem. Como se fosse a primeira vez. Porque te abri a porta? Porquê? Raiva de mim mesma. Do teu corpo, da minha fraqueza. Mas é a última vez. Sem dúvida, esta é a ultima vez.

E ficas. Como das outras vezes. Contra tudo o que pensei. Ficas na minha pele. Como tatuagem feita em manhã de sofrimento.

Não sais nem com o banho matinal. Não há roupa lavada que elimine o teu cheiro. E de mim? O que sobra de mim depois de ti? Para a próxima não venhas. A menos que fiques.