Perguntaram-me qual foi o melhor beijo que experimentei. Não tive
dificuldades em escolher, nem tão pouco quaisquer dúvidas. Não foi o melhor por
ser o primeiro, nem por ser o último. Foi simplesmente aquele. Nem sequer foi
um beijo que dei, foi-me dado.
O sítio era feio. Uma rua suja e perpendicular, com lixo por recolher,
acima do bar escolhido por não ser nenhum dos nossos. Era território neutro,
onde ninguém nos conhecia. Perguntaste porque é que eu tinha sempre tanta
pressa e disseste que me ias ensinar o que era um beijo... sem pressas.
Acedendo, encostei-me levemente à parede e coloquei as mãos atrás das costas,
como quem estava recetivo ao que quer que viesse a seguir. Sem me tocar,
aproximaste-te, mas não demasiado. Aproximaste os teus lábios dos meus, de tal
modo que sentia a tua respiração. O teu respirar marcava o ritmo do meu coração
e ainda eras só um desejo. Aí o tempo deixou de contar. Suavemente, depois de
segundos que foram horas, deixaste os teus lábios acariciarem os meus. Aí
comecei a voar. Mexias lentamente os lábios contra os meus enquanto
enlouquecias os meus poros. Imóvel de desejo, lá estava eu. Aos poucos
decidiste começar a abrir os lábios e deixar a energia fluir. Era tanta a energia
contida nos nossos corpos que poderíamos flutuar. Beijaste-me lenta e
demoradamente por horas sem fim, que podem bem ter sido meros segundos, já que
perdera a noção do tempo e do espaço. Sentia-te quente através da tua língua e
já não pensava. Os movimentos lentos da forma como me beijavas inundaram-me de
energia eletrizante. Todas as minhas extremidades estavam alerta e queriam
mais. Já tinha viajado para um mundo distante, guiada pelos teus sentidos. As
tuas mãos não me tocaram uma única vez, porém, sentia-me inundada de ti. Já
estava longe, num mar de prazer que me fazia esquecer o sítio feio e sujo em
que ainda estávamos…
Terminaste quando quiseste e nem chegaste a tocar-me. Fisicamente diga-se –
pois tocaste a minha alma com a energia do teu beijo lento de uma forma nunca
antes experimentada. Desde esse dia, jamais esqueci aquele beijo dado, ao qual
nenhum outro foi ainda sequer capaz de se aproximar.
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