Viver ou pensar? Pensar em viver? Viver a pensar? Viver sem pensar? Pensar
sem viver?…
Parece que para estarmos verdadeiramente concentrados em viver não podemos
estar sempre a pensar. Uma espécie de afronta ao multitasking. Como se só nos pudéssemos entregar despojadamente ao
momento, na sua (nossa) plenitude, se não tivermos consciência de que o estamos a fazer. Como se pensar
complicasse tudo, colocasse entraves, erguesse barreiras. O não pensar seria o
nosso passe livre para a entrega total ao momento, à pessoa, ao local. Mas será
mesmo assim? Será mesmo possível não pensar?!Diria que a vida é feita de momentos alternados. Vamos amealhando uns “momentos” em que não pensámos e, logo, nos entregámos totalmente e, de tempos a tempos, paramos – voluntaria ou forçadamente – para pensar. Para fazer o balanço. Para refletir, avaliar, desconstruir. Logo, arrumar. Claro que há quem nunca saia do círculo, mas mude apenas a direção em si mesmo (ora no sentido dos ponteiros do relógio, ora no sentido contrário). Nem todos alcançaram um estado de consciência e autoconceito que lhes permita não andar em círculos e avançar.
Há ainda aqueles que, em círculo ou não, pensam demais… ou aqueles que - como
eu - optam por, por vezes, pensar de menos. São opções que uns tomam
conscientemente, outros nem tanto. Não há uma resposta. Não há uma certeza.
Há, no entanto, alguém que com mestria pensou muito sobre o assunto… o não pensar…
“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho
o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio
no mundo como num malmequer,
Porque
o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu
não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se
falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...”
Alberto Caeiro in “O Guardador de Rebanhos”, Poema II