Hoje, já não somos aqueles dois
miúdos, mas eu ainda anseio por ti no cimo da escada. Hoje ainda és um porto de
abrigo, onde encontro o consolo de todos os devaneios não concretizados. Sei
que esperas por mim, por mais que te zangues com as minhas dúvidas. Sei que
acreditas que fazemos sentido, mesmo quando ninguém está do nosso lado. Mas
sabes, eles acreditam mais em nós do que nós próprios... Como poderemos algum
dia fazer com que resulte?!
Às vezes onde tudo acaba é o exato momento onde tudo recomeça. Onde estou, quem sou, para onde vou....o que é que interessa?! Devaneios, sentimentos, encontros e desencontros...dentro e fora de mim. Hoje. Agora. Por aqui.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
No cimo da escada
Eu e tu no cimo da escada,
escondidos de todos. Ousaste quebrar as nossas regras e sair fora da nossa zona
de conforto. Tive medo da mudança, do desconhecido. Não fora o medo e talvez a
nossa história não se escrevesse por estas linhas. Depressa seríamos apanhados
escondidos por entre as árvores do jardim e seria o início de uma forma
diferente de amizade, em que já nada estava certo e tranquilo.
Lama em mim
Quão engraçada é uma aula de
direitos reais em que aprendemos a diferença entre posse e mera detenção?
Quão engraçado é o sentimento de
posse de algo que julgamos que temos? … A diferença entre ter, estar e possuir.
Estou com uma pessoa, tenho um
desejo, mas só posso possuir uma coisa. E no entanto… no entanto… Não percebo o
que tenho, não oiço o meu desejo e possuo o que não quero!
Salto nas pedras da confusão,
caminho sobre a lama e finalmente, aterro no charco da contradição. Descalço as
botas, sinto a merda quente sob os meus pés macios. Estou suja, mas na verdade
sinto-me porca. Essa verdade mentirosa que me lançou na espiral dos enganos,
nos quais me banho dia após dia. Esse chuveiro avariado que
pinga..pinga..pinga.. Gotas de sangue frio por já não me circular nas veias há
demasiado tempo. O suficiente para perceber que a vida que há em mim, não pode
mais ser usada e abusada.
Chega.
E fico ali, à espera. Por entre
águas enlameadas da memória, esperarei o tempo que for preciso (sem saber o que
é o tempo ou o que é preciso).
Sou paciente com os meus desejos.
Tenho de lhes dar oportunidade. A derradeira. Para respirarem uma última vez.
Cerro os olhos e com toda a força do pensamento, transporto-me para essa outra
galáxia onde, algures em nenhures, fui eu, com ele, sem ele, mas eu. E guardo
esse instante veloz, sem medo nem preconceitos, para a eternidade terrena, fora
desse universo secreto onde me envolvi em movimentos lentos e elípticos, mas de
onde, forçosamente, tenho de sair de rajada.
Rajada do mesmo vento,
tempestuoso, que me traz de volta à realidade, porque ainda sou real, de carne
e osso; ainda me doem as feridas que eu abri. Mas não irei fechá-las. Não quero
e não posso. Quero mantê-las abertas para não esquecer. Só assim poderei
recordar sempre, sempre, o caminho por onde não mais seguir. Só assim estarei a
salvo de mim própria, de uma auto-mutilação muito mais profunda e dolorosa do
que essas feridas.
Só assim…por me arder a pele onde
cravei a navalha esses desejos, por me sentir rasgada de uma posse alheia, conseguida
a lágrimas do coração, só assim me posso despir de ti e finalmente perseguir-me
só a mim.
E hoje é o dia! Hoje volto a
escutar-me com atenção, mas agora à voz da razão! E ela diz-me, claramente, o
que eu sempre soube… No fundo, nós somos iguais, cometemos os mesmos erros e
prevaricamos na mesma ausência de comunicação. Mas porque não queremos mais,
não mais do que isto.
Mas eu quero mais, sou mais!, e
hoje desprendo-me destas teias bolorentas, rumo (mesmo que a pouco e pouco) a
um ar limpo e solarengo, não mais conspurcado pela vergonha de desejar sem
querer e de possuir sem ter.
Hoje reencontro-me com as minhas
certezas.
(E tantos anos depois, há ainda tanto a aprender... com as necessárias adaptações.)
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