Foi aí que te vi. Nesse momento
terno em que não te preocupaste com o mundo em redor. Quando te entregaste na
fragilidade de uma paixão inevitável. Não mais fingiste que não te importavas
com o rumo imprimido à nossa relação e deixaste que as coisas fluíssem. O ritmo
alucinante do teu toque dizia publicamente que me querias. Deixaste de lutar
contra as nossas evidências históricas e ficou claro que iríamos permitir-nos um
pouco mais. Estávamos a redescobrir-nos como duas crianças que terminam a
primária e estão ansiosas pelo novo ciclo e a novidade de uma turma por
conhecer.
Começámos a aprender uma outra
linguagem para comunicarmos entre nós. Depressa um pouco mais se tornou muito.
Ensinaste-me todos os teus truques, as tuas expressões de alegria e de desespero.
Eu ensinei-te muitos dos meus 1001 sorrisos sem no entanto terminar com o
mistério. Aprendemos a ler o olhar um do outro e a saber o que o outro sentiria
mesmo antes de suceder. Fazias-me querer ser melhor a cada dia, não que eu não
fosse suficiente, mas porque podia ser sublime. Eu não te deixava cair na
rotina e contrariava as tuas tentativas de acomodação ao ritmo da vida. Era uma
dança constante, só mudava a música que nos acompanhava.
Juntos fazíamos, sem dúvida, o
mundo girar, tornando-o melhor. Pelo menos, acreditávamos nisso. Valia a pena
acordar todos os dias e levantar o estore. Fizesse chuva ou fizesse sol, tudo
era vivido na intensidade de um sorriso, como se o amanhã fosse uma verdadeira
dádiva. E era.
Até àquele dia. O dia em que,
pela primeira vez, lá fora o sol não nasceu e a escuridão se instalou. Nesse
dia o mundo parou irremediavelmente. Não esse, mas o nosso. O nosso mundo
deixou, para sempre, de girar. Tu foste embora, sem apelo nem aviso.
Deixaste-me descalça num mundo cheio de espinhos, sem a menor noção de caminho.
Não mais te vi, não mais te senti ou cheirei. Vejo-te sempre que fecho os
olhos, porque em mim continuarás. Mas não é a mesma coisa, jamais será…
Dava tudo por mais um dia nesse
mundo encantado contigo.
Não sei o que faria, nem tão
pouco o que diria. Mas sei que, no fim do dia, não te deixaria ir sozinho. E se
não fossemos juntos, então dir-te-ia para me esperares do outro lado, que o rio
é escuro e profundo, mas não há nada que não se ultrapasse. Sei que me dirias
que não, assim como tu sabes que eu o faria na mesma.
E é disso que sinto falta, da
minha outra metade, da qual me separaram nessa outra vida.
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