terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Um do outro


Foi aí que te vi. Nesse momento terno em que não te preocupaste com o mundo em redor. Quando te entregaste na fragilidade de uma paixão inevitável. Não mais fingiste que não te importavas com o rumo imprimido à nossa relação e deixaste que as coisas fluíssem. O ritmo alucinante do teu toque dizia publicamente que me querias. Deixaste de lutar contra as nossas evidências históricas e ficou claro que iríamos permitir-nos um pouco mais. Estávamos a redescobrir-nos como duas crianças que terminam a primária e estão ansiosas pelo novo ciclo e a novidade de uma turma por conhecer.

Começámos a aprender uma outra linguagem para comunicarmos entre nós. Depressa um pouco mais se tornou muito. Ensinaste-me todos os teus truques, as tuas expressões de alegria e de desespero. Eu ensinei-te muitos dos meus 1001 sorrisos sem no entanto terminar com o mistério. Aprendemos a ler o olhar um do outro e a saber o que o outro sentiria mesmo antes de suceder. Fazias-me querer ser melhor a cada dia, não que eu não fosse suficiente, mas porque podia ser sublime. Eu não te deixava cair na rotina e contrariava as tuas tentativas de acomodação ao ritmo da vida. Era uma dança constante, só mudava a música que nos acompanhava.

Juntos fazíamos, sem dúvida, o mundo girar, tornando-o melhor. Pelo menos, acreditávamos nisso. Valia a pena acordar todos os dias e levantar o estore. Fizesse chuva ou fizesse sol, tudo era vivido na intensidade de um sorriso, como se o amanhã fosse uma verdadeira dádiva. E era.

Até àquele dia. O dia em que, pela primeira vez, lá fora o sol não nasceu e a escuridão se instalou. Nesse dia o mundo parou irremediavelmente. Não esse, mas o nosso. O nosso mundo deixou, para sempre, de girar. Tu foste embora, sem apelo nem aviso. Deixaste-me descalça num mundo cheio de espinhos, sem a menor noção de caminho. Não mais te vi, não mais te senti ou cheirei. Vejo-te sempre que fecho os olhos, porque em mim continuarás. Mas não é a mesma coisa, jamais será…

Dava tudo por mais um dia nesse mundo encantado contigo.

Não sei o que faria, nem tão pouco o que diria. Mas sei que, no fim do dia, não te deixaria ir sozinho. E se não fossemos juntos, então dir-te-ia para me esperares do outro lado, que o rio é escuro e profundo, mas não há nada que não se ultrapasse. Sei que me dirias que não, assim como tu sabes que eu o faria na mesma.

E é disso que sinto falta, da minha outra metade, da qual me separaram nessa outra vida.

Sem comentários:

Enviar um comentário