Ali ao virar da esquina. Em qualquer lado se conhece alguém. Numa fila de
autocarro, na praia, num bar, numa discoteca, na fila do supermercado, na loja
do cidadão, na repartição de finanças, numa loja de música, na escola, na
faculdade, num café, na rua, num banco de jardim. Como se o perfume das
feromonas tivesse fugido da maleta vermelha e se tivesse entornado em ti. É só
mais um… e mais um.
Por entre a multidão não é difícil saber quem te faria tremer as pernas. Como
se o frio na barriga congelasse o corpo e paralisasse os neurónios restantes. Aqueles
que rapidamente tentam voltar a si e dar a ordem imperativa: “Recompõe-te. Age normalmente!”.
Talvez um dia isso seja possível. Mas hoje não. Hoje o teu olhar ainda
desconcerta as minhas certezas. Hoje o teu sorriso ainda faz moça na minha
confiança. Hoje ainda não me és indiferente, por entre centenas de pessoas.
Hoje ainda te quero. Mas só hoje.
Hoje o amanhã ainda é um novo dia em que com o passar do tempo este “hoje” se
transformará num ontem cada vez mais distante. Um dia, ao virar de uma nova
esquina, o amanhã será hoje. Nesse dia, já não te verei por entre a multidão, seja
uma multidão de milhões ou de uma só pessoa. Nesse dia serei livre e estarei
pronta. Toda eu.