Tantas vezes pensamos que o mais
difícil é falar e confessar a traição ou a mentira; quando afinal isso é o ato
libertador, o que transporta uma parte do peso da culpa para o outro. Por
vezes, é mais difícil calar e viver a vida com a sombra constante do erro que
se cometeu e guardar a dor só para si.
Mas quem sou eu para julgar?!
Quem sou eu para ver os outros a preto e branco se a vida, essa, vive-se no
cinzento? Não o cinzento da tristeza inerte ou da ausência de emoção, mas o
cinzento das almas humanas que teimam em querer saltar do branco para o preto
como se a gravidade fosse apenas uma piada. Porque é que afinal ansiamos tanto
por chegar ao branco quando estamos no preto, e vice-versa, se é no cinzento
que a vida acontece? É no cinzento que caímos redondos após um salto ambicioso,
mas é também aí que nos levantamos mais fortes do que dantes. É no cinzento que
estão os seres pensantes e não apenas os autómatos. É aqui que nos apaixonamos
por todos os epítetos sobre os quais as mães nos avisaram. É no cinzento que
estamos constantemente a gravar cenas sem realizador ou assistentes de
produção. Aqui não há certo ou errado, nem verdade ou mentira. Aqui há apenas a
perceção de cada um sobre cada uma destas coisas.
O cinzento encerra em si a falta
de clareza do branco ou do preto, mas em compensação, permite a beleza de viver
em harmonia com a imperfeição do Homem, de a amar e desejar na sua plenitude e com
toda a intensidade.
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