quinta-feira, 7 de maio de 2015

Por mim chega


Sei que não é a hora nem o local, mas que se dane!

As feridas que abriste… chegou a hora de as fechar.

Já arderam tempo suficiente por vidas inteiras e diz que só temos uma.

Fechem-se as feridas, que o amanhã é um novo dia. E todo o fim… implica um recomeço.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

No cimo da escada

Eu e tu no cimo da escada, escondidos de todos. Ousaste quebrar as nossas regras e sair fora da nossa zona de conforto. Tive medo da mudança, do desconhecido. Não fora o medo e talvez a nossa história não se escrevesse por estas linhas. Depressa seríamos apanhados escondidos por entre as árvores do jardim e seria o início de uma forma diferente de amizade, em que já nada estava certo e tranquilo.

Hoje, já não somos aqueles dois miúdos, mas eu ainda anseio por ti no cimo da escada. Hoje ainda és um porto de abrigo, onde encontro o consolo de todos os devaneios não concretizados. Sei que esperas por mim, por mais que te zangues com as minhas dúvidas. Sei que acreditas que fazemos sentido, mesmo quando ninguém está do nosso lado. Mas sabes, eles acreditam mais em nós do que nós próprios... Como poderemos algum dia fazer com que resulte?!

Lama em mim


Quão engraçada é uma aula de direitos reais em que aprendemos a diferença entre posse e mera detenção?

Quão engraçado é o sentimento de posse de algo que julgamos que temos? … A diferença entre ter, estar e possuir.

Estou com uma pessoa, tenho um desejo, mas só posso possuir uma coisa. E no entanto… no entanto… Não percebo o que tenho, não oiço o meu desejo e possuo o que não quero!

Salto nas pedras da confusão, caminho sobre a lama e finalmente, aterro no charco da contradição. Descalço as botas, sinto a merda quente sob os meus pés macios. Estou suja, mas na verdade sinto-me porca. Essa verdade mentirosa que me lançou na espiral dos enganos, nos quais me banho dia após dia. Esse chuveiro avariado que pinga..pinga..pinga.. Gotas de sangue frio por já não me circular nas veias há demasiado tempo. O suficiente para perceber que a vida que há em mim, não pode mais ser usada e abusada.


Chega.


E fico ali, à espera. Por entre águas enlameadas da memória, esperarei o tempo que for preciso (sem saber o que é o tempo ou o que é preciso).

Sou paciente com os meus desejos. Tenho de lhes dar oportunidade. A derradeira. Para respirarem uma última vez. Cerro os olhos e com toda a força do pensamento, transporto-me para essa outra galáxia onde, algures em nenhures, fui eu, com ele, sem ele, mas eu. E guardo esse instante veloz, sem medo nem preconceitos, para a eternidade terrena, fora desse universo secreto onde me envolvi em movimentos lentos e elípticos, mas de onde, forçosamente, tenho de sair de rajada.

Rajada do mesmo vento, tempestuoso, que me traz de volta à realidade, porque ainda sou real, de carne e osso; ainda me doem as feridas que eu abri. Mas não irei fechá-las. Não quero e não posso. Quero mantê-las abertas para não esquecer. Só assim poderei recordar sempre, sempre, o caminho por onde não mais seguir. Só assim estarei a salvo de mim própria, de uma auto-mutilação muito mais profunda e dolorosa do que essas feridas.

 
Só assim…por me arder a pele onde cravei a navalha esses desejos, por me sentir rasgada de uma posse alheia, conseguida a lágrimas do coração, só assim me posso despir de ti e finalmente perseguir-me só a mim.


E hoje é o dia! Hoje volto a escutar-me com atenção, mas agora à voz da razão! E ela diz-me, claramente, o que eu sempre soube… No fundo, nós somos iguais, cometemos os mesmos erros e prevaricamos na mesma ausência de comunicação. Mas porque não queremos mais, não mais do que isto.

Mas eu quero mais, sou mais!, e hoje desprendo-me destas teias bolorentas, rumo (mesmo que a pouco e pouco) a um ar limpo e solarengo, não mais conspurcado pela vergonha de desejar sem querer e de possuir sem ter.


Hoje reencontro-me com as minhas certezas.
 
(E tantos anos depois, há ainda tanto a aprender... com as necessárias adaptações.)

domingo, 22 de março de 2015

Fizeste bem

Há sempre o dia em que o ciclo se fecha. O dia em que tudo o que vivemos ficou, de vez, lá no passado. O dia em que apenas podemos sorrir sobre o que nos uniu. Foi forte. Mas foi. Já não é. E isso dá o mote à conversação. Conversa de circunstância com sabor a estranheza. Aquela que se instalou entre nós por não mais nos falarmos. Na altura foi preciso. Mas já não o é. Sei que estamos tranquilos com as opções tomadas. Vejo que a vida te acentuou as rugas que não te via há uns meses, quem sabe anos. A vida marcou-te, em troca do que lhe tiraste. Em mim só ficou o bom. E voa, como as gargalhadas que dei ao teu lado. Foste a escolha certa, quando o precisei. Deste-me a liberdade que eu não encontrava em mais lado nenhum. Permitiste-me ser leve numa vida tão pesada. E eu flutuei. E depois caí. Mas caí na terra e depressa me levantei. Sem rancores ou ressentimentos. Abraçar-te-ia se pudesse, por todos os momentos únicos que contigo vivi. E é isso que verás em cada sorriso meu. E nada mais.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Pesado castigo

Por todos os momentos em que visualizaste a tua vida de forma diferente. Por todos os fechar de olhos em que nos viste, perfeitos, como dois erros que o universo juntou. Eu sonhei o teu toque, no abraço terno que a tua culpa afastou. Foram minutos divertidos antes da verdade demolidora. Como quem saboreia o prazer uma última vez antes de riscar o desejo louco. Foi tão rápido quanto injusto. Duas almas não se deviam largar assim. Na escuridão de um futuro insatisfeito. Inacabado.

Vamos juntos para um destino longínquo onde ninguém julgará as nossas opções. Deixemo-nos apaixonar pelo ideal sem mais. Em que tudo é luz e calor, e os nossos corpos levitam sem pressa, movidos por duas almas leves.

Não devíamos pagar um preço tão alto por sentirmos o incontrolável... Não devíamos ser castigados por sentir o que não escolhemos, nem pedimos. A lembrança da tua existência já é, pela vida fora, castigo suficiente.

Maior até que o adeus.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

É escuro, este sítio

É de noite. Não, é escuro. Está escuro neste sítio estranho, onde o sol não brilha. É o vazio de luz a instalar-se. Num salão de baile onde não há música. Nem pessoas. As pessoas foram há muito. Fugiram para onde há luz. Não ficaram para ver a decadência das paredes frias. Sem tinta fresca há tantos anos. Os restos das festas loucas ainda permanecem. No bar só há garrafas vazias, sem água para as lavar. O chão estalado de festas mil conta as histórias de uma vida. Onde ontem havia luz, música e cor, hoje só há lixo pelos cantos, ausência de vida e nostalgia dos tempos idos. A escadaria de acesso ao salão é demasiado alta e os saltos altos da vida já dificultam a subida. Foram ficando cá em baixo, à porta, os poucos que ainda se interessaram por aquele sítio. A curiosidade do antigamente fê-los ir até lá na esperança de o boato ser isso mesmo... um boato. Mas não era. E ali já não havia nada. Nada que interessasse. Apenas na cabeça de alguns jazia a lembrança da alegria vivida, da energia alucinada, da atração química. As histórias de pele e de alma quente não haviam morrido, é certo. Mas a distância do tempo esbatera a memória, esvaziando a emoção sentida. Ali já nada viveria outra vez, pensou enquanto a lágrima escorria.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Porque choras?


Poderei um dia voltar a cometer o pecado de te querer? Poderei lutar contra mim própria?

Por longe que estejas, nunca foste pó.

O sorriso que tantas vezes me desarmou. O corpo que conheço como um mapa do tesouro por mim desenhado.

Porque choro eu?

Somos escravos de um destino que não traçámos, de um amor que não quisemos.

Para onde foi todo o desejo que sentíamos?

Deste-me tanto e tanto me tiraste…será o balanço a fazer o de que ainda existes?!

Existes na memória da minha pele, não já na minha cabeça.

Porque choro eu?

Ver-te nunca é uma digestão fácil de fazer, mas antes uma refeição farta em tarde de calor alentejana.

Não matas, mas ainda móis.

Como a saudade desses tempos intensamente leves que eram vividos com a beleza de um horizonte ainda longínquo. Tão longínquo.

Porque choram as saudades?

Da simplicidade tão difícil de alcançar na idade dos porquês.

Quando ainda não sabíamos o que a vida nos reservava, enquanto discutíamos por tudo o que hoje já não importa.

Andámos tantas vezes em círculos loucos de aventuras sem sentido…

Porque choraste tu?

Esperando que, como sempre, o círculo se fechasse e nos empurrasse novamente para os braços um do outro.

Que o ímpeto de nos termos se sobrepusesse a toda a dor do nosso afastamento.

Ainda lutaste, mesmo depois de eu ter desistido. Como se tudo fosse possível.

Não grites. Não chores.

Eu sei, eu sei, desta vez o círculo não se fechou.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Um do outro


Foi aí que te vi. Nesse momento terno em que não te preocupaste com o mundo em redor. Quando te entregaste na fragilidade de uma paixão inevitável. Não mais fingiste que não te importavas com o rumo imprimido à nossa relação e deixaste que as coisas fluíssem. O ritmo alucinante do teu toque dizia publicamente que me querias. Deixaste de lutar contra as nossas evidências históricas e ficou claro que iríamos permitir-nos um pouco mais. Estávamos a redescobrir-nos como duas crianças que terminam a primária e estão ansiosas pelo novo ciclo e a novidade de uma turma por conhecer.

Começámos a aprender uma outra linguagem para comunicarmos entre nós. Depressa um pouco mais se tornou muito. Ensinaste-me todos os teus truques, as tuas expressões de alegria e de desespero. Eu ensinei-te muitos dos meus 1001 sorrisos sem no entanto terminar com o mistério. Aprendemos a ler o olhar um do outro e a saber o que o outro sentiria mesmo antes de suceder. Fazias-me querer ser melhor a cada dia, não que eu não fosse suficiente, mas porque podia ser sublime. Eu não te deixava cair na rotina e contrariava as tuas tentativas de acomodação ao ritmo da vida. Era uma dança constante, só mudava a música que nos acompanhava.

Juntos fazíamos, sem dúvida, o mundo girar, tornando-o melhor. Pelo menos, acreditávamos nisso. Valia a pena acordar todos os dias e levantar o estore. Fizesse chuva ou fizesse sol, tudo era vivido na intensidade de um sorriso, como se o amanhã fosse uma verdadeira dádiva. E era.

Até àquele dia. O dia em que, pela primeira vez, lá fora o sol não nasceu e a escuridão se instalou. Nesse dia o mundo parou irremediavelmente. Não esse, mas o nosso. O nosso mundo deixou, para sempre, de girar. Tu foste embora, sem apelo nem aviso. Deixaste-me descalça num mundo cheio de espinhos, sem a menor noção de caminho. Não mais te vi, não mais te senti ou cheirei. Vejo-te sempre que fecho os olhos, porque em mim continuarás. Mas não é a mesma coisa, jamais será…

Dava tudo por mais um dia nesse mundo encantado contigo.

Não sei o que faria, nem tão pouco o que diria. Mas sei que, no fim do dia, não te deixaria ir sozinho. E se não fossemos juntos, então dir-te-ia para me esperares do outro lado, que o rio é escuro e profundo, mas não há nada que não se ultrapasse. Sei que me dirias que não, assim como tu sabes que eu o faria na mesma.

E é disso que sinto falta, da minha outra metade, da qual me separaram nessa outra vida.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cor cinza


Tantas vezes pensamos que o mais difícil é falar e confessar a traição ou a mentira; quando afinal isso é o ato libertador, o que transporta uma parte do peso da culpa para o outro. Por vezes, é mais difícil calar e viver a vida com a sombra constante do erro que se cometeu e guardar a dor só para si.

Mas quem sou eu para julgar?! Quem sou eu para ver os outros a preto e branco se a vida, essa, vive-se no cinzento? Não o cinzento da tristeza inerte ou da ausência de emoção, mas o cinzento das almas humanas que teimam em querer saltar do branco para o preto como se a gravidade fosse apenas uma piada. Porque é que afinal ansiamos tanto por chegar ao branco quando estamos no preto, e vice-versa, se é no cinzento que a vida acontece? É no cinzento que caímos redondos após um salto ambicioso, mas é também aí que nos levantamos mais fortes do que dantes. É no cinzento que estão os seres pensantes e não apenas os autómatos. É aqui que nos apaixonamos por todos os epítetos sobre os quais as mães nos avisaram. É no cinzento que estamos constantemente a gravar cenas sem realizador ou assistentes de produção. Aqui não há certo ou errado, nem verdade ou mentira. Aqui há apenas a perceção de cada um sobre cada uma destas coisas.

O cinzento encerra em si a falta de clareza do branco ou do preto, mas em compensação, permite a beleza de viver em harmonia com a imperfeição do Homem, de a amar e desejar na sua plenitude e com toda a intensidade.

Assim farei


"Se ele lhe pudesse deixar uma mensagem, qual é que seria?"

Silêncio.

"Provavelmente diria: não deixes nada por viver!"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O dissecar de um beijo (ou mais do que um beijo II)

Perguntaram-me qual foi o melhor beijo que experimentei. Não tive dificuldades em escolher, nem tão pouco quaisquer dúvidas. Não foi o melhor por ser o primeiro, nem por ser o último. Foi simplesmente aquele. Nem sequer foi um beijo que dei, foi-me dado.
O sítio era feio. Uma rua suja e perpendicular, com lixo por recolher, acima do bar escolhido por não ser nenhum dos nossos. Era território neutro, onde ninguém nos conhecia. Perguntaste porque é que eu tinha sempre tanta pressa e disseste que me ias ensinar o que era um beijo... sem pressas. Acedendo, encostei-me levemente à parede e coloquei as mãos atrás das costas, como quem estava recetivo ao que quer que viesse a seguir. Sem me tocar, aproximaste-te, mas não demasiado. Aproximaste os teus lábios dos meus, de tal modo que sentia a tua respiração. O teu respirar marcava o ritmo do meu coração e ainda eras só um desejo. Aí o tempo deixou de contar. Suavemente, depois de segundos que foram horas, deixaste os teus lábios acariciarem os meus. Aí comecei a voar. Mexias lentamente os lábios contra os meus enquanto enlouquecias os meus poros. Imóvel de desejo, lá estava eu. Aos poucos decidiste começar a abrir os lábios e deixar a energia fluir. Era tanta a energia contida nos nossos corpos que poderíamos flutuar. Beijaste-me lenta e demoradamente por horas sem fim, que podem bem ter sido meros segundos, já que perdera a noção do tempo e do espaço. Sentia-te quente através da tua língua e já não pensava. Os movimentos lentos da forma como me beijavas inundaram-me de energia eletrizante. Todas as minhas extremidades estavam alerta e queriam mais. Já tinha viajado para um mundo distante, guiada pelos teus sentidos. As tuas mãos não me tocaram uma única vez, porém, sentia-me inundada de ti. Já estava longe, num mar de prazer que me fazia esquecer o sítio feio e sujo em que ainda estávamos…
Terminaste quando quiseste e nem chegaste a tocar-me. Fisicamente diga-se – pois tocaste a minha alma com a energia do teu beijo lento de uma forma nunca antes experimentada. Desde esse dia, jamais esqueci aquele beijo dado, ao qual nenhum outro foi ainda sequer capaz de se aproximar.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

E cai a ficha...


Há coisas que realmente importam. E depois há as outras.

Não importa os anos que estivemos afastados, mas apenas os que estivemos juntos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Hino ao não desperdício

É mais difícil esquecer o beijo que não se deu.
Porque o beijo que se deu, sentiu-se. E passou.
O beijo que não se deu, pensou-se. E perdurou.

 

Que nos seja leve


A lonjura da tua voz não afasta a proximidade dos meus pensamentos. Sai já que eu não aguento nem mais um minuto desse cheiro ausente. Busco nas dezenas de caras o teu rosto inquietante. Sorrio na serenidade de não te saber perto.
Na encruzilhada do caminho a minha placa não tinha o mesmo nome da tua. Que nos seja leve a incerteza do destino. Da decisão tomada. E que saibamos ser felizes quando nada mais há a fazer. Até um dia...
 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mais do que...


Noite dentro no bairro do costume, nesse dia totalmente novo. Dobraram a esquina de uma perpendicular escura, suja e gasta pelo tempo. "Porque tens tanta pressa?" Perguntou ele. "Vou ensinar-te a não teres pressa." disse, encostando-a à parede sem esperar pela resposta.
Colocando as mãos atrás das costas, ela sorriu num gesto condescendente, como quem aceita os ensinamentos que está prestes a receber.

Ele inclinou-se sobre ela e, com as mãos apoiadas na parede atrás dela, foi-se aproximando lentamente. Tão lentamente que ela sentia o respirar dele sem sentir ainda o toque do seu corpo. Ouviram o respirar um do outro durante algum tempo – ele provocava-a com a espera; ela deixou-se ir, viajando sem sair do sítio. A energia dos corpos já se sentia e ainda nem se tinham tocado. A temperatura das almas subia vertiginosamente e parecia que o coração lhe ia saltar do peito. Mas sobreviveu...e, mais do que isso, viveu intensamente aquele momento.


….um beijo