Hoje sinto um deserto em mim. Não que eu saiba o que é o deserto ou que já tenha estado num. Mas como um dos vários significados atribuídos à palavra, hoje é esta palavra que define o meu estado de espírito. "Ermo, despovoado, solitário" é o lugar em que habito desde há muito. E esse muito é tempo a mais.
Poderia ser também "vazio" o termo escolhido, enquanto matéria à qual o conteúdo foi retirado. Mas "deserto" tem em si a ideia de travessia, que "vazio" não tem. Acredito que a minha alma não ficou deserta, mas atravessa um deserto. Seco de emoções, árido de afetos. Como se eu já tivesse esgotado tudo o que pudesse sentir. No que efetivamente senti e no que deixei por sentir. Como se já não fosse capaz de sentir mais nada de bom, de leve, de esperançoso. Vivendo apenas como um autómato que reconhece as funções a desempenhar, as tarefas a cumprir. Assim vivo todos os dias, sem qualquer sentido de caminho. Antes parecia tão fácil estar alegre e contente, resplandecente de luz. Algo que antes era tão natural agora parece tão difícil de alcançar. Nada nos é garantido afinal. Podemos perder tanto em tão pouco tempo... Como uma luz que se apaga na escuridão. Escuridão de uma noite fria rodeada de areia sem fim. Sem motivo, avaria ou razão aparente. Apaga-se quando mais se precisa dela. Para deixar um vazio a preencher o lugar outrora quente e dourado de uma alma cheia de luz.
Hoje estou deserta. De mim, de ti, de nós. De tudo o que foi, tudo o que não foi e o que não chegou a ser. E do que já não poderá ser. Deserta de emoções e de afetos. Numa travessia só minha... que eu não escolhi, mas que também não evitei que acontecesse.