terça-feira, 23 de julho de 2013

Noutro lugar


Hoje sinto a minha alma nostálgica, repousante num corpo que comeu demasiados nigiris, sushi rolls, makis e guiozas no restaurante em frente – ou como dizia a minha chefe M.: “vamos comer sushi como se não houvesse amanhã”! – e que nem os dois cafés curtos e o slim fumado com prazer fez ressuscitar.

Dormiria agora uma sesta longa, numa espreguiçadeira sob o sol longínquo de Sulawesi perdido no meio do Pacífico. Mergulharia então nas profundezas de um oceano sem medo do amanhã ou mesmo de que ele não chegue. E esperaria por ti ao pôr-do-sol quente e alaranjado, com toques de um roxo sem igual. Faríamos então amor sem fim até ao sol nascer e a fome e o calor nos impedirem de continuar no bungalow de palhota improvisado.

Não mais quero regressar à azáfama de uma cidade, ainda que maravilhosa e com reflexos de paraíso na luz que emana, mas cinzenta nas cores das almas e suas mentalidades. O stress que nos corre nas veias, entope-nos como o colesterol de um homem de 45 anos que fuma dois maços de SG por dia. Há mais vida, há sempre mais vida…

Hoje a minha mesa de faia podia ser uma areia branca fina, na qual me deito e deleito enquanto te vejo ao longe, a vestir o fato de mergulho e a preparares-te para mais uma exploração em descoberta de cores e espécies novas. Esperarei por ti ao som do meu “cisne negro”, que me faz reflectir sobre a previsibilidade daqueles que se pensam ser acontecimentos imprevisíveis.

Ainda oiço ao longe o toque do que foi a minha vida, antes disto, antes de ti. As saudades que deixei no coração de quem não pude trazer para esta aventura sem hora, dia ou fim marcado.

Recordo aquele arroz doce com sabor a Portugal, os inúmeros jantares nas casas deles, o Verduzzo fresco e as ressacas sem fim, o tinto da Pam em Siena, na promoção de um euro que nos fez arrepender de não ter mais…os gorros sentados em pleno Palio, a relembrar a infância, a salada no pão que repartimos com os pombos, o sorriso, não o teu, mas o dele, de uma magia e simplicidade inigualáveis, a serenidade que me davas e que eu não soube compreender, o marrochino freddo depois do almoço na mensa, na Dante de todos nós.

As idas e as vindas, os cigarros ao longo da Lungarno, as partidas e as chegadas, as correrias em Pisa Centrale, o cheiro do teu corpo que só eu sentia, o beijo que eu não queria que tu não me desses, a dificuldade em disfarçar a vontade de ser tua, os Bottellione na Garibaldi, os encontros fortuitos quase furtivos na Borgo Stretto, todos os lugares em que não estavas, mas eu te sentia. Mas também os outros momentos. Os só meus e dele, a chuva quente de inverno, o “knocking on heaven's door” no kebab dos vampirii, os sonhos perdidos com o nascer do dia, o sabor amargo das aventuras que sabíamos proibidas.

Sem dúvida tempos de emoções intensas, amores que nunca foram, paixões que não deixaram de ser. Já no fim, os teus olhos reflectiam o Arno em plena Ponte di Mezzo, e apesar do tom saudoso de despedida, como quem faz a conclusão na dissertação do que sabe ser o último exame do liceu, não deixaste de me lançar aquele charme quente que me fez ter a certeza que foste uma boa escolha….uma boa passagem. Tentaste explicar sentimentos que não tinham explicação por entre trilhos de luzes traçados na minha imaginação. Hoje, naquela noite, já nada tinha importância. Eu perdoava-te tudo. Acreditavas na altura que por não me quereres ver, me estarias sempre a encontrar… a vida assim…

“Lu!”, ouvi. “Não acordes”, pensei eu no meu estado de vigília, na latência de quem quase alcança o sono. Mas o beijo molhado precipitou o meu regresso à realidade….como eu desejava, por instantes, que fosse teu…, não teu, mas dele, aquele beijo.

Suave e lentamente abri os olhos, e aceitei a minha escolha. Eras tu agora o meu destino, aquele que eu tracei. Havia encontrado o meu “cisne negro” e não lamentava um segundo da minha decisão de partir contigo. O som do teu olhar completava o vazio que anos antes ele deixara em mim. O aroma do teu toque tinha o poder de me aquecer no cinzento da cidade como o sol de Sulawesi. Viveria contigo para sempre num bungalow empalhado sem precisar de absolutamente mais nada…mais ninguém…

Assaltava-me a mente o sonho de há pouco…afinal não seria verdade, não estavas certo….pois a vida assim… não quis!

(Como alguém escrevia noutro lugar… “A vida é feita de pneus e alcatrão”… Mas não só…)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Palco de vida

Desta vez o telefone não toca. Não procuram por mim na cidade. A manhã esqueceu-se de quem eu sou e confundiu-me com mais uma das que passam. Mais um dia que se repete noite após noite. Lateja a cabeça doente do veneno ingerido como elixir da juventude e nada mais há a dizer. Não sobra nada digno de se contar. Não sobra nada digno de se recordar. Por entre escombros de pensamentos intermitentes insurge-se o orgulho manchado por quem ousa atropelar-se nos passos. Ups. Não esticarei a mão para ajudar na subida. Mas também não dificultarei o regresso à tona. Só não estarei lá. Não vou assistir a um espectáculo para o qual não fui convidada.

Prefiro outras plateias. Noutros teatros. De monóculo em rist, aguentarei pacientemente os saltos de 12 centímetros que anseio por tirar, juntamente com o resto que me tapa. Já falta pouco. Faremos a saída da praxe, sem ninguém reparar. Deixarei o teu calor inundar-me talvez pela última vez. Deixar-te-ei mergulhar no meu fulgor e afogar-nos-emos por segundos, pois é isso que parece. Apenas segundos dura o nosso amor. Como aquela passagem de nível com o controlador sonolento que acorda no último minuto mesmo antes do embate, da desgraça. É assim o nosso amor. Aqueles segundos fugazes e ansiosos que medeiam entre a ultima hipótese e o medo de não chegar a tempo com o dedo ao botão. Tem de ser hoje que amanhã podemos já não estar aqui.

É vida num segundo mas não em retrospectiva. É tempo real num momento do tempo sem realidade. É uma dor que não dói, anestesiada com a novocaína do sofrimento calcificado. Sim, não são só os ossos que calcificam. Outras coisas cristalizam com a mesma rigidez. Mas ao menos os ossos partem-se…

Não é possível mudar a envolvência, as circunstâncias, o cenário da peça. Já se escutaram as três pancadinhas de Molière e vimo-nos lançados aos lobos, para a frente do palco. Não há fuga possível, só há uma hipótese. Quem está no palco leva com as luzes da ribalta e só pode fazer o que lhe compete. Actuar.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Não ao acaso

Como diz o outro, nada acontece por acaso.

Não nos conhecemos por acaso, não te foste por acaso, não me fui por acaso.
Nestes (des)acasos constantes sei apenas que entraste na minha vida por uma razão.

Chegaste, estiveste e não foste em vão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Gritar mais alto


Sim ao teu desvario mais louco. Saudades desse sorriso encantado. Como aquele segundo em que só tu me entendeste.
O tempo parava. O meu toque acalmava-te. Estar contigo era esquecer o mundo. O que era e o que não era. Era uma adrenalina quente. Que doía de tanto bater. Viciante de tão reconfortante. Alucinava os meus pensamentos mais recônditos. Não valia a pena esconder-me – tu encontravas-me. Mais valia assumir de uma só vez e aceitar. Aceitar o grito. Porque se eu gritava, tu gritavas mais alto… E que bem que sabia!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pergunta e resposta

Onde andaste este tempo todo?” – Poderia ser a pergunta para um dia nos termos encontrado.
 
Estive sempre aqui.” – Poderia ser a resposta para os permanentes encontros e desencontros.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Por que demoraste tanto?

Vontade de me enfiar nos teus lençóis. A meio da noite escura. Como se o meu corpo soubesse o caminho. Caminho esse que nunca levou a nada, mas nunca esqueceu. O caminho da amizade colorida a desejo. Levanto-me e vou pé ante pé, já largando as roupas no corredor. Chego despida de pudores à tua cama e partilho do teu calor. Lentamente acordas ao sentir do meu toque, ouvindo a minha respiração. Sem estranheza aceitas a minha presença, como se a esperasses faz muito. Sentindo o meu corpo nu, beijas-me levemente. A princípio. De seguida matamos saudades de outra vida e envolvemo-nos na energia da noite. Uma noite só nossa. Em que a lua se enche só para nós. Extenuados pelo luar já longo, adormecemos juntos em sintonia. De manhã acordas-me… e com um beijo, perguntas baixinho: “Por que demoraste tanto?”.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Questão de pele

Nem sempre é uma questão de química. Às vezes é uma coisa de pele. Como se o toque queimasse ao menor encontro. Ardendo de desejo por te saber perto. Podem passar meses, anos, até mundos, que quando me voltas a tocar o meu corpo recorda-se. Como se tivesse uma memória seletiva que se ativa ao som da tua pele. Voltam lembranças de tempos idos. De quando nos escondíamos do mundo para nos encontrarmos a nós. De quando saíamos sorrateiramente para fugirmos dos olhares alheios. Era outro espaço de loucura, onde cortávamos as amarras de sempre e quebrávamos tudo à nossa volta. Sem receio do dia seguinte e do trabalho que teríamos em arrumar, limpar, reconstruir. Depois quebrou-se o feitiço e seguimos o dito caminho da normalidade. Anos volvidos, ainda hoje reconheço aquele olhar. E perdidos na multidão, ainda hoje a minha pele reage à tua e te diz aquilo que só tu entendes. Como se fosse ontem que te inclinei a cabeça e tu, percebendo o sinal, te levantaste à minha frente. Há coisas para as quais o tempo não passa. E a minha pele gostar da tua é uma delas.