Com o passar dos dias a angústia por não te ver ficou mais leve; a ansiedade para te ver ficou mais doce. Ontem tiravas-me o fôlego num pensamento; hoje já não assustas o meu ser. O medo da incerteza venceu. Provavelmente foi isso.
Tanto que poderia ter sido o nosso caminho, por entre ruas sem nome, sobre pedras brilhantes de calor, sob um céu azul de maresia. Mas não fomos longe, não chegámos ao início dessa rua. Ficámos ainda na praceta velha e sorumbática, recheada de prédios com a tinta desmaiada e a estalar. Um local onde o cheiro a urina da noite anterior e os copos largados no chão das beatas não deixam dúvidas da sujidade em que nos movemos. O sítio onde ficámos presos, sem que nada verdadeiramente nos segurasse. Uma espécie de purgatório das almas onde ficam aqueles que deixaram passar a oportunidade de se entregarem. De amarem. Secos e sós lá ficámos sem amor. E pior... Sendo obrigados a vermo-nos todos os dias, mudos permanecemos.
A incerteza de um dia tornou-se afinal a certeza de uma vida que podia ter sido e não foi. O medo de ser feliz venceu-nos... E a questão que se coloca é: valerá a pena esta derrota?
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