quinta-feira, 27 de junho de 2013

Caminhando

Caminhei a medo
Olhando para os lados, um a um
E sorrateiramente espreitando para trás.
Não era receio que me seguissem
Mas apenas que me vissem
E soubessem, afinal, para onde eu ia.

No casulo árido que criei
Ficaram os espinhos que não tirei
E aí me distanciei de tudo e de todos
E da dor. Da dor que carreguei.
E ainda carrego. Sem medo de assumir.

Foi dura esta viagem
Em que trilhei o caminho, longo
Para sair daqui. De mim.
Foste tu. Foi por ti que perdi o medo
Aquele que me amarrava. E me atiçava
Incendiando as cinzas da minha alma.
Dormente das drogas que já não tomava.
Da coca que já não cheirava. Agora…
Apenas tinha a lembrança que me sabia a ti.

E nesse caminho esburacado pelo tempo
A chuva de ilusões cessara.
Aqui já não. Já não mora aquele.
Aquele que me ensandecia docemente
Que me roubava o espaço e o tempo friamente
E que tudo o que levava, pelo caminho,
Não devolvia.

Mas hoje sou mais eu. Por ti. Porque sim.
Porque tu levaste a chave
Da porta do medo feroz
Que me separava de mim e que fazia, ah se fazia…
Que nesta loucura cândida
Das palavras perdidas
Eu ficasse mais perto de ti.
E agora? Agora vou-me.
Porque finalmente é dia
E eu apaguei a escuridão em mim.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pedaço de mim

Em ti ficou um pedaço de mim. Um pedaço da minha loucura mais ímpia. E ao mesmo tempo mais pura. Queria ter-te aqui no acordar da noite. Mais uma noite cheia de tudo e de nada. Vazia de ti.
Não fiques, não voltes. Onde quer que vás, não me deixes. Sedimentaste a loucura em mim… Sem retorno possível. Abriste a porta à falta que sinto de ti. E agora que foste, que te foste… porque teimas em ficar em mim?!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Subam e encontrem o paraíso em Lisboa


Chiu. Não digas mais nada. Fiquemos em silêncio. Neste silêncio ensurdecedor das nossas ideias. Deixa-me ser ocupa. A ocupa dos teus sonhos. Como o ocupa do Quintal, que afinal arrenda, mas continua a acreditar viver na ilegalidade.
Vivamos à margem da lei. Dessas leis que outros criaram e escreveram como certas. Como se a verdade fosse só uma. Mais fria. Mais crua. Mais real. Mas a verdade é um manto de retalhos que apenas pela sua conjugação fazem sentido.
Chiu. Não fales mais. Deixa-me ouvir o som das galinhas no Quintal. Esse paraíso na cidade em que tudo pode ser real. E meo.
Por entre rostos, rastas, jambés e guitarras, a sinfonia das cores não para.
E lá vai mais um risco. Um e depois outro. Em plena comunhão com o cheiro a erva que paira. Nada mais se quer. Com o aditivo do desejo, o banquete está completo. Tu sorris. Dizes que gostas de mim. E por hoje chega. Por hoje sabes-me bem. E o quintal em Lisboa preenche a minha necessidade de natureza.
(e às vezes não é preciso mais nada)
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Hora marcada?


Se alguém marcou a hora? Não sei.
Se o dia estava escrito? Para quê?
Sem saber quem eras, perguntei.
Sorriste. Lentamente me deste o que te pedi.
Falaste. Encantaste. Ouvi.
Joguei como sempre fiz.
Sem saber que o jogo, um dia, se viraria contra mim.
E como quem chega, parti.
Para fumar o cigarro que te pedi.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Inversão


O que é que queres?

Vodka limão”, disse ela.

A noite já ia longa em misturas. “ Consegues tudo o que queres?”. “Sim”. Ela sorriu. Ele falou-lhe ao ouvido. Passou-lhe a mão pelo cabelo. Vai-não-vai. Na novidade do beijo experimentado que ainda não se deu, ainda havia o friozinho na barriga, a pequena emoção, quase adrenalina.

Nós fomos feitos um para o outro, sabias?”. “Sei isso há anos”.

Afinal, o som do olhar tinha dito que sim muito cedo na noite. Aquele sim com cheiro a “vai acontecer”. Ele sabia. Ela sempre soube. Não podiam fugir, mas deviam… “Anda”, pegou-lhe na mão, e dali saíram, para longe dos olhares atentos e expectantes. Hoje não queriam plateia. Pelo menos aquela. Dançaram. E dançaram. Preparando o inevitável. Era uma questão de tempo, tão previsível como o sol nascer. Alimentaram, por entre olhares fogosos e sussurros indiscretos, o desejo até ao limite humanamente suportável.

Beijaram-se longa e repetidamente. E sentiram-se. Fizeram amor sem ser preciso tocar. Já ninguém importava. Ar puro. Beijo excitado. Vista sobre o rio. “ E agora?”. “Beijo-te outra vez”. O tempo perdeu-se. Eles perderam-se no tempo. Desejaram que o tempo não mais passasse. Ele agarrou-lhe na mão, mais uma vez, e conduziu-a. Lá fora nem o frio os acordava. A viagem pareceu curta. A memória da viagem foi curta. Desta vez já não foi preciso dizer, não foi necessário pedir. E muito menos responder.

Era a certeza inabalável de uma loucura, tão saudável quanto demente. Uma loucura incipiente junto à bebedeira dos sentidos. Dos corpos nus no chão. Do adormecer na cama de exaustão de tanto prazer. O que quer que fosse…era como se não houvesse amanhã.

Mas havia. O amanhã chegou e a sua luz cruel não lhes perdoou.

Eu não acredito!”. Sim, sim… a realidade dura e fria. Ainda grogue mas já por demais implacável. “Anda cá”, disse com voz doce de quem quer o seu calor. Mas agora, ela já não foi. A lucidez dolorosa de quem quer mas sabe que não pode. Já havia demasiados cacos para apanhar. Para apanhar antes de ir. Noutra vida, ela teria ficado. Na vida que viveu na noite anterior. Aquela plataforma alternativa de existência fugaz. Nessa outra vida, em que não haveria amanhecer. Vestiu-se a custo. Apanhou as roupas e bocados dela em divisões diferentes. A casa era grande. Já à porta do elevador, ela ainda regressou, para um último beijo. Sim, “o último” beijo. Porque o seria.

A manhã foi ainda mais cruel. Não lhe perdoou os pecados, aquelas loucuras momentâneas. Mas o sorriso dos seus lábios tinha um toque de esperança. Aliás, que diferença fazia?! A certeza de que tudo seria igual já ela possuía. A dúvida de uma mudança, inquietante, que piorasse tudo seria sempre uma possibilidade. Porque não permitir-se prolongar um pouco mais aquela sensação? Aquele calor que sabia jamais chegaria a aquecer. Como aquele sol de inverno. Brilhante, mas insípido.

Já não era tempo de novidades, nem de certezas. Estava consciente de que aquele não era um caminho. Não chegava a lado nenhum. Era somente, como tantos outros, mais um beco sem saída. E assim entrou, deu à chave e seguiu. Nem pensou. Limitou-se a conservar, na viagem, o doce feeling que o prazer deixara emprenhado na pele. E antes de estacionar, sorriu, fazendo a tão acostumada inversão de marcha.

Ansiedade


O aperto inexplicável acompanha a sensação de que falta alguma coisa. A ansiedade outrora constante regressa hoje de sobressalto. Sonho inquietante que deixa a angústia no peito, sem saber porquê. A rapidez desastrada de quem quer chegar rápido, antes, já atrapalha os sentidos pouco lúcidos. Tanta pressa para chegar onde, aonde, a quem!?! Agosto na cidade são 8 minutos, não mais. É o melhor dos dois mundos juntos num dia na barafunda da metrópole, mas agora sem barafunda. Já não me lembrava de quanto te sentia. Já não recordava a falta que me fazias. Verdadeiras saudades. E a ansiedade, essa, era por ti. A pressa galopante era toda e só para te ver. Hoje percebi.