“O que é que queres?”
“Vodka limão”, disse ela.
A noite já ia longa em misturas. “ Consegues tudo o que queres?”. “Sim”.
Ela sorriu. Ele falou-lhe ao ouvido. Passou-lhe a mão pelo cabelo. Vai-não-vai.
Na novidade do beijo experimentado que ainda não se deu, ainda havia o
friozinho na barriga, a pequena emoção, quase adrenalina.
“Nós fomos feitos um para o outro, sabias?”. “Sei isso há anos”.
Afinal, o som do olhar tinha dito que sim muito cedo na noite. Aquele sim
com cheiro a “vai acontecer”. Ele sabia. Ela sempre soube. Não podiam fugir,
mas deviam… “Anda”, pegou-lhe na mão, e dali saíram, para longe dos olhares
atentos e expectantes. Hoje não queriam plateia. Pelo menos aquela. Dançaram. E
dançaram. Preparando o inevitável. Era uma questão de tempo, tão previsível
como o sol nascer. Alimentaram, por entre olhares fogosos e sussurros
indiscretos, o desejo até ao limite humanamente suportável.
Beijaram-se longa e repetidamente. E sentiram-se. Fizeram amor sem ser
preciso tocar. Já ninguém importava. Ar puro. Beijo excitado. Vista sobre o
rio. “ E agora?”. “Beijo-te outra vez”. O tempo perdeu-se. Eles perderam-se no
tempo. Desejaram que o tempo não mais passasse. Ele agarrou-lhe na mão, mais
uma vez, e conduziu-a. Lá fora nem o frio os acordava. A viagem pareceu curta.
A memória da viagem foi curta. Desta vez já não foi preciso dizer, não foi
necessário pedir. E muito menos responder.
Era a certeza inabalável de uma loucura, tão saudável quanto demente. Uma
loucura incipiente junto à bebedeira dos sentidos. Dos corpos nus no chão. Do
adormecer na cama de exaustão de tanto prazer. O que quer que fosse…era como se
não houvesse amanhã.
Mas havia. O amanhã chegou e a sua luz cruel não lhes perdoou.
“Eu não acredito!”. Sim, sim… a realidade dura e fria. Ainda grogue mas já
por demais implacável. “Anda cá”, disse com voz doce de quem quer o seu calor.
Mas agora, ela já não foi. A lucidez dolorosa de quem quer mas sabe que não
pode. Já havia demasiados cacos para apanhar. Para apanhar antes de ir. Noutra
vida, ela teria ficado. Na vida que viveu na noite anterior. Aquela plataforma
alternativa de existência fugaz. Nessa outra vida, em que não haveria
amanhecer. Vestiu-se a custo. Apanhou as roupas e bocados dela em divisões
diferentes. A casa era grande. Já à porta do elevador, ela ainda regressou,
para um último beijo. Sim, “o último” beijo. Porque o seria.
A manhã foi ainda mais cruel. Não lhe perdoou os pecados, aquelas loucuras
momentâneas. Mas o sorriso dos seus lábios tinha um toque de esperança. Aliás,
que diferença fazia?! A certeza de que tudo seria igual já ela possuía. A
dúvida de uma mudança, inquietante, que piorasse tudo seria sempre uma
possibilidade. Porque não permitir-se prolongar um pouco mais aquela sensação?
Aquele calor que sabia jamais chegaria a aquecer. Como aquele sol de inverno.
Brilhante, mas insípido.
Já não era tempo de novidades, nem de certezas. Estava consciente de que
aquele não era um caminho. Não chegava a lado nenhum. Era somente, como tantos
outros, mais um beco sem saída. E assim entrou, deu à chave e seguiu. Nem
pensou. Limitou-se a conservar, na viagem, o doce feeling que o prazer deixara
emprenhado na pele. E antes de estacionar, sorriu, fazendo a tão
acostumada inversão de marcha.