sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A perspetiva muda tudo


Tudo é relativo, já sabemos.
Tudo deve ser apreciado segundo o seu contexto, as suas circunstâncias, o seu tempo e lugar. Nada existe só por si, sem ligação ao restante. Eu sou eu com toda a minha bagagem, as minhas vivências, as experiências boas e más, os sorrisos, os gritos, a ira, o medo, a tristeza, a saudade, a fraqueza, a alegria.
E o que tem isto de novo? Qual a conclusão de uma evidência? É fácil, nada. Absolutamente nada. Estas palavras servem de introito apenas para dizer que hoje, só queria fechar os olhos, esquecer tudo e aceitar um convite para o sunrise.

O Poço

Há muitos anos acreditava que não existia um fundo do poço. E não existia, porque cada metro que baixávamos mais fundo, era cada igual metro que o poço ganhava.

Hoje continuo a acreditar nisso. Nunca conhecerei o fundo do poço. Porém, a diferença é que agora sei que somos nós que alimentamos os infindáveis metros de profundidade do poço, ainda que, inevitável e inconscientemente o façamos porque faz parte da deturpada natureza humana que integramos.
Mais do que apanágio da vida, decididamente, o poço está em nós. Na nossa cabeça.


(Quatro anos volvidos e este texto continua tão atual....)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O primeiro piquenique


Há quem tenha rios de dinheiro, há quem tenha o corpo da Gisele Bündchen, há quem acorde todos os dias ao lado do Cauã Reymond, há quem seja pago para viajar, há quem vá à lua, há quem seja chefe, há quem tenha um Matisse na sala, há quem tenha filhos do Brad Pitt, há quem tenha uma casa de três andares, há quem tenha um museu, há quem tenha a voz da Ana Moura, há quem tenha asas. E depois há quem não precise de nada disto porque tem as melhores amigas que alguém pode desejar ter. São momentos como piqueniques inesperados em casas por inaugurar que nos enchem o coração e nos fazem agradecer cada segundo. Obrigada às duas.

 
 
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O que foste e o que nunca foi II

 
Antes arriscar do que viver com a dúvida do "como poderia ter sido"...
 
 

O que foste e o que nunca foi


Sinto-me cheia de nada. Repleta do vazio que as palavras que nunca te disse originaram. As palavras que nunca te disse que na verdade nem sabia que sentia.

Foi o fosso entre o momento em que quis, mas não to consegui dizer. Não consegui confessar, deixando o medo falar mais alto. O medo do quê, afinal?!!

Que vil e doloroso medo é esse que me impediu de te ter quando pude, por não me deixar ver que te queria?! Emersa num mar de lodo, denso, sem ter visibilidade de terra. Essa terra onde estavas, onde um dia estiveste, aguardando por mim…

Fugiu-me entre os dedos a oportunidade… Aquela que nasceu naquele dia… inimaginável…. quando te desafiei e no fim… a desafiada fui eu… Sempre te quis controlar mas no final…a dominada fui eu. Fizeste de mim o que quiseste e eu deixei, de sorriso nos lábios.

Nunca puxei a conversa devida, deixando-me sempre na comodidade que a ignorância me proporcionava… A ignorância que deixava em aberto a possibilidade maior. Mas se o meu coração sentia que sim, porém a minha cabeça não me deixava dizer que sim e os meus actos…tantas vezes disseram que não.

Todas aquelas vezes em que te dei um murro no estômago, sob a forma de caras tuas conhecidas que de uma forma ou doutra te esfreguei e te fizeram sentir menos especial.

Todas aquelas vezes em que te mostrei uma racional indiferença, mecânica, pensada, quando só eu sabia que bastava um sinal teu… mas ainda assim nunca to deixei perceber, guardando toda a realidade num mundo censurado, só meu.

Não foram uma nem duas as vezes em que imaginei uma conversa…aquela conversa.

Mas de todas as vezes não deixei que os sons saíssem da minha boca. Calei-me. Silenciei-me.

 

 

E agora, resta-me aprender a viver com esse silêncio… em mim.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Como tu


De sorriso fácil e jeito leve, lá estavas tu no sítio do costume. Onde tantas vezes te encontrei. Não já de cores vivas como antes, mas emanando a luz que te caracteriza. Em pouco tempo os teus lábios voltaram a tocar nos meus, mesmo antes de uma fuga do 96 para o meio do nada. Onde a chuva caía em cima de nós como o sol em dia de agosto. Libertadora como só ela. Por entre pedidos e casamentos sonhados, antecedendo o momento de regresso à realidade. Os anos passaram e a nossa ligação continua a mesma. Às vezes somos outra vez aqueles dois miúdos, empoleirados na conduta da água, a metros do chão, a contemplar Lisboa. E como é linda esta cidade, serena, quente, húmida. E segura, aconchegante, como tu.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Pensar vs Viver


Viver ou pensar? Pensar em viver? Viver a pensar? Viver sem pensar? Pensar sem viver?…
Parece que para estarmos verdadeiramente concentrados em viver não podemos estar sempre a pensar. Uma espécie de afronta ao multitasking. Como se só nos pudéssemos entregar despojadamente ao momento, na sua (nossa) plenitude, se não tivermos consciência de que o estamos a fazer. Como se pensar complicasse tudo, colocasse entraves, erguesse barreiras. O não pensar seria o nosso passe livre para a entrega total ao momento, à pessoa, ao local. Mas será mesmo assim? Será mesmo possível não pensar?!

Diria que a vida é feita de momentos alternados. Vamos amealhando uns “momentos” em que não pensámos e, logo, nos entregámos totalmente e, de tempos a tempos, paramos – voluntaria ou forçadamente – para pensar. Para fazer o balanço. Para refletir, avaliar, desconstruir. Logo, arrumar. Claro que há quem nunca saia do círculo, mas mude apenas a direção em si mesmo (ora no sentido dos ponteiros do relógio, ora no sentido contrário). Nem todos alcançaram um estado de consciência e autoconceito que lhes permita não andar em círculos e avançar.

Há ainda aqueles que, em círculo ou não, pensam demais… ou aqueles que - como eu - optam por, por vezes, pensar de menos. São opções que uns tomam conscientemente, outros nem tanto. Não há uma resposta. Não há uma certeza.

Há, no entanto, alguém que com mestria pensou muito sobre o assunto… o não pensar

“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...”


Alberto Caeiro in “O Guardador de Rebanhos”, Poema II

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Medo do próprio medo


Tenho medo de um dia olhar para trás e só ver o que fiz de errado. Tenho medo de estar a perder tempo. Tenho medo de só olhar e não conseguir ver. Tenho medo de achar que tenho razão. Tenho medo de (me) enganar. Tenho medo de cair sem trapézio. Tenho medo de me perder e não encontrar o caminho de volta. Tenho medo de estragar tudo. Tenho medo de ser tarde demais. Tenho medo de não saber. Tenho medo de já saber e não ver. Tenho medo de ter medo. Tenho medo de saber que um dia tive estes medos. E tenho mais medo de não ter medo.

Hoje.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A cada nova esquina

Ali ao virar da esquina. Em qualquer lado se conhece alguém. Numa fila de autocarro, na praia, num bar, numa discoteca, na fila do supermercado, na loja do cidadão, na repartição de finanças, numa loja de música, na escola, na faculdade, num café, na rua, num banco de jardim. Como se o perfume das feromonas tivesse fugido da maleta vermelha e se tivesse entornado em ti. É só mais um… e mais um.
Por entre a multidão não é difícil saber quem te faria tremer as pernas. Como se o frio na barriga congelasse o corpo e paralisasse os neurónios restantes. Aqueles que rapidamente tentam voltar a si e dar a ordem imperativa: “Recompõe-te. Age normalmente!”.
Talvez um dia isso seja possível. Mas hoje não. Hoje o teu olhar ainda desconcerta as minhas certezas. Hoje o teu sorriso ainda faz moça na minha confiança. Hoje ainda não me és indiferente, por entre centenas de pessoas. Hoje ainda te quero. Mas só hoje.
Hoje o amanhã ainda é um novo dia em que com o passar do tempo este “hoje” se transformará num ontem cada vez mais distante. Um dia, ao virar de uma nova esquina, o amanhã será hoje. Nesse dia, já não te verei por entre a multidão, seja uma multidão de milhões ou de uma só pessoa. Nesse dia serei livre e estarei pronta. Toda eu.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A falta


Sinto-te a falta.
Sinto falta do teu toque
Do cheiro do teu sorriso
Do som do teu olhar quando me tocas.


Sinto falta dessa loucura surda
Do grito cego com que não dizias
O que sentias, o que querias
Porque afinal nem tu sabias.

 
E éramos dois à deriva
Num mar de uma só corrente
Que te puxava para longe
Sempre tão perto.
Nunca tão certo.

 
Sussurravas esse pensamento
Na esperança que eu o ouvisse
Com medo que eu o sentisse
E que afinal percebesse.


Que não era falta. Era presença.
A presença de te sentir ausente.

 
(Sinto hoje falta de te sentir a falta.)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ser mais

Há sempre alguém, ao virar de uma esquina, que nos lembra que há mais na vida. Mais sentimentos leves a serem descobertos. Se foste importante para mim, em algum momento, certamente encontrarás um lugar no meu coração onde permanecer. Nada farei para te esquecer, mas igualmente nada farei para te recuperar.

Como num lapso de tempo em que a vida se solta, conheces alguém que te preenche. Alguém com que poderias passar tempo, apenas tempo, sem o perder. Alguém com quem falar em silêncio ou gritar em surdina por entre sorrisos ternos. Alguém a quem desejas ardentemente tocar e partilhar da energia latente que nos(te) consome. Alguém que num universo paralelo – que afinal é o teu – seria perfeito. Mas alguém que habita um sonho longínquo de uma viagem que ainda está por fazer.
 
Ficam assim as coordenadas para esse sítio onde há mais. Mais vida. E ficam também as coordenadas para o ideal de alguém que te recordará que não te contentarás com menos se podes ter mais. Na vida tudo se acaba e tudo recomeça… É por isso mesmo que tu serás o meu mais, sempre que estiver perto de aceitar o menos.

Sem aviso


Chegou sem aviso. Com um sorriso terno e uma pergunta curiosa. A curiosidade pegou-se e em segundos cresceu. Em mim. Estranho ao princípio, rapidamente se misturou o sal da água com o sabor dos lençóis. Aquilo que eu gosto, aquilo que tu gostas…não é diferente a final.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Noutro lugar


Hoje sinto a minha alma nostálgica, repousante num corpo que comeu demasiados nigiris, sushi rolls, makis e guiozas no restaurante em frente – ou como dizia a minha chefe M.: “vamos comer sushi como se não houvesse amanhã”! – e que nem os dois cafés curtos e o slim fumado com prazer fez ressuscitar.

Dormiria agora uma sesta longa, numa espreguiçadeira sob o sol longínquo de Sulawesi perdido no meio do Pacífico. Mergulharia então nas profundezas de um oceano sem medo do amanhã ou mesmo de que ele não chegue. E esperaria por ti ao pôr-do-sol quente e alaranjado, com toques de um roxo sem igual. Faríamos então amor sem fim até ao sol nascer e a fome e o calor nos impedirem de continuar no bungalow de palhota improvisado.

Não mais quero regressar à azáfama de uma cidade, ainda que maravilhosa e com reflexos de paraíso na luz que emana, mas cinzenta nas cores das almas e suas mentalidades. O stress que nos corre nas veias, entope-nos como o colesterol de um homem de 45 anos que fuma dois maços de SG por dia. Há mais vida, há sempre mais vida…

Hoje a minha mesa de faia podia ser uma areia branca fina, na qual me deito e deleito enquanto te vejo ao longe, a vestir o fato de mergulho e a preparares-te para mais uma exploração em descoberta de cores e espécies novas. Esperarei por ti ao som do meu “cisne negro”, que me faz reflectir sobre a previsibilidade daqueles que se pensam ser acontecimentos imprevisíveis.

Ainda oiço ao longe o toque do que foi a minha vida, antes disto, antes de ti. As saudades que deixei no coração de quem não pude trazer para esta aventura sem hora, dia ou fim marcado.

Recordo aquele arroz doce com sabor a Portugal, os inúmeros jantares nas casas deles, o Verduzzo fresco e as ressacas sem fim, o tinto da Pam em Siena, na promoção de um euro que nos fez arrepender de não ter mais…os gorros sentados em pleno Palio, a relembrar a infância, a salada no pão que repartimos com os pombos, o sorriso, não o teu, mas o dele, de uma magia e simplicidade inigualáveis, a serenidade que me davas e que eu não soube compreender, o marrochino freddo depois do almoço na mensa, na Dante de todos nós.

As idas e as vindas, os cigarros ao longo da Lungarno, as partidas e as chegadas, as correrias em Pisa Centrale, o cheiro do teu corpo que só eu sentia, o beijo que eu não queria que tu não me desses, a dificuldade em disfarçar a vontade de ser tua, os Bottellione na Garibaldi, os encontros fortuitos quase furtivos na Borgo Stretto, todos os lugares em que não estavas, mas eu te sentia. Mas também os outros momentos. Os só meus e dele, a chuva quente de inverno, o “knocking on heaven's door” no kebab dos vampirii, os sonhos perdidos com o nascer do dia, o sabor amargo das aventuras que sabíamos proibidas.

Sem dúvida tempos de emoções intensas, amores que nunca foram, paixões que não deixaram de ser. Já no fim, os teus olhos reflectiam o Arno em plena Ponte di Mezzo, e apesar do tom saudoso de despedida, como quem faz a conclusão na dissertação do que sabe ser o último exame do liceu, não deixaste de me lançar aquele charme quente que me fez ter a certeza que foste uma boa escolha….uma boa passagem. Tentaste explicar sentimentos que não tinham explicação por entre trilhos de luzes traçados na minha imaginação. Hoje, naquela noite, já nada tinha importância. Eu perdoava-te tudo. Acreditavas na altura que por não me quereres ver, me estarias sempre a encontrar… a vida assim…

“Lu!”, ouvi. “Não acordes”, pensei eu no meu estado de vigília, na latência de quem quase alcança o sono. Mas o beijo molhado precipitou o meu regresso à realidade….como eu desejava, por instantes, que fosse teu…, não teu, mas dele, aquele beijo.

Suave e lentamente abri os olhos, e aceitei a minha escolha. Eras tu agora o meu destino, aquele que eu tracei. Havia encontrado o meu “cisne negro” e não lamentava um segundo da minha decisão de partir contigo. O som do teu olhar completava o vazio que anos antes ele deixara em mim. O aroma do teu toque tinha o poder de me aquecer no cinzento da cidade como o sol de Sulawesi. Viveria contigo para sempre num bungalow empalhado sem precisar de absolutamente mais nada…mais ninguém…

Assaltava-me a mente o sonho de há pouco…afinal não seria verdade, não estavas certo….pois a vida assim… não quis!

(Como alguém escrevia noutro lugar… “A vida é feita de pneus e alcatrão”… Mas não só…)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Palco de vida

Desta vez o telefone não toca. Não procuram por mim na cidade. A manhã esqueceu-se de quem eu sou e confundiu-me com mais uma das que passam. Mais um dia que se repete noite após noite. Lateja a cabeça doente do veneno ingerido como elixir da juventude e nada mais há a dizer. Não sobra nada digno de se contar. Não sobra nada digno de se recordar. Por entre escombros de pensamentos intermitentes insurge-se o orgulho manchado por quem ousa atropelar-se nos passos. Ups. Não esticarei a mão para ajudar na subida. Mas também não dificultarei o regresso à tona. Só não estarei lá. Não vou assistir a um espectáculo para o qual não fui convidada.

Prefiro outras plateias. Noutros teatros. De monóculo em rist, aguentarei pacientemente os saltos de 12 centímetros que anseio por tirar, juntamente com o resto que me tapa. Já falta pouco. Faremos a saída da praxe, sem ninguém reparar. Deixarei o teu calor inundar-me talvez pela última vez. Deixar-te-ei mergulhar no meu fulgor e afogar-nos-emos por segundos, pois é isso que parece. Apenas segundos dura o nosso amor. Como aquela passagem de nível com o controlador sonolento que acorda no último minuto mesmo antes do embate, da desgraça. É assim o nosso amor. Aqueles segundos fugazes e ansiosos que medeiam entre a ultima hipótese e o medo de não chegar a tempo com o dedo ao botão. Tem de ser hoje que amanhã podemos já não estar aqui.

É vida num segundo mas não em retrospectiva. É tempo real num momento do tempo sem realidade. É uma dor que não dói, anestesiada com a novocaína do sofrimento calcificado. Sim, não são só os ossos que calcificam. Outras coisas cristalizam com a mesma rigidez. Mas ao menos os ossos partem-se…

Não é possível mudar a envolvência, as circunstâncias, o cenário da peça. Já se escutaram as três pancadinhas de Molière e vimo-nos lançados aos lobos, para a frente do palco. Não há fuga possível, só há uma hipótese. Quem está no palco leva com as luzes da ribalta e só pode fazer o que lhe compete. Actuar.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Não ao acaso

Como diz o outro, nada acontece por acaso.

Não nos conhecemos por acaso, não te foste por acaso, não me fui por acaso.
Nestes (des)acasos constantes sei apenas que entraste na minha vida por uma razão.

Chegaste, estiveste e não foste em vão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Gritar mais alto


Sim ao teu desvario mais louco. Saudades desse sorriso encantado. Como aquele segundo em que só tu me entendeste.
O tempo parava. O meu toque acalmava-te. Estar contigo era esquecer o mundo. O que era e o que não era. Era uma adrenalina quente. Que doía de tanto bater. Viciante de tão reconfortante. Alucinava os meus pensamentos mais recônditos. Não valia a pena esconder-me – tu encontravas-me. Mais valia assumir de uma só vez e aceitar. Aceitar o grito. Porque se eu gritava, tu gritavas mais alto… E que bem que sabia!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pergunta e resposta

Onde andaste este tempo todo?” – Poderia ser a pergunta para um dia nos termos encontrado.
 
Estive sempre aqui.” – Poderia ser a resposta para os permanentes encontros e desencontros.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Por que demoraste tanto?

Vontade de me enfiar nos teus lençóis. A meio da noite escura. Como se o meu corpo soubesse o caminho. Caminho esse que nunca levou a nada, mas nunca esqueceu. O caminho da amizade colorida a desejo. Levanto-me e vou pé ante pé, já largando as roupas no corredor. Chego despida de pudores à tua cama e partilho do teu calor. Lentamente acordas ao sentir do meu toque, ouvindo a minha respiração. Sem estranheza aceitas a minha presença, como se a esperasses faz muito. Sentindo o meu corpo nu, beijas-me levemente. A princípio. De seguida matamos saudades de outra vida e envolvemo-nos na energia da noite. Uma noite só nossa. Em que a lua se enche só para nós. Extenuados pelo luar já longo, adormecemos juntos em sintonia. De manhã acordas-me… e com um beijo, perguntas baixinho: “Por que demoraste tanto?”.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Questão de pele

Nem sempre é uma questão de química. Às vezes é uma coisa de pele. Como se o toque queimasse ao menor encontro. Ardendo de desejo por te saber perto. Podem passar meses, anos, até mundos, que quando me voltas a tocar o meu corpo recorda-se. Como se tivesse uma memória seletiva que se ativa ao som da tua pele. Voltam lembranças de tempos idos. De quando nos escondíamos do mundo para nos encontrarmos a nós. De quando saíamos sorrateiramente para fugirmos dos olhares alheios. Era outro espaço de loucura, onde cortávamos as amarras de sempre e quebrávamos tudo à nossa volta. Sem receio do dia seguinte e do trabalho que teríamos em arrumar, limpar, reconstruir. Depois quebrou-se o feitiço e seguimos o dito caminho da normalidade. Anos volvidos, ainda hoje reconheço aquele olhar. E perdidos na multidão, ainda hoje a minha pele reage à tua e te diz aquilo que só tu entendes. Como se fosse ontem que te inclinei a cabeça e tu, percebendo o sinal, te levantaste à minha frente. Há coisas para as quais o tempo não passa. E a minha pele gostar da tua é uma delas.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Caminhando

Caminhei a medo
Olhando para os lados, um a um
E sorrateiramente espreitando para trás.
Não era receio que me seguissem
Mas apenas que me vissem
E soubessem, afinal, para onde eu ia.

No casulo árido que criei
Ficaram os espinhos que não tirei
E aí me distanciei de tudo e de todos
E da dor. Da dor que carreguei.
E ainda carrego. Sem medo de assumir.

Foi dura esta viagem
Em que trilhei o caminho, longo
Para sair daqui. De mim.
Foste tu. Foi por ti que perdi o medo
Aquele que me amarrava. E me atiçava
Incendiando as cinzas da minha alma.
Dormente das drogas que já não tomava.
Da coca que já não cheirava. Agora…
Apenas tinha a lembrança que me sabia a ti.

E nesse caminho esburacado pelo tempo
A chuva de ilusões cessara.
Aqui já não. Já não mora aquele.
Aquele que me ensandecia docemente
Que me roubava o espaço e o tempo friamente
E que tudo o que levava, pelo caminho,
Não devolvia.

Mas hoje sou mais eu. Por ti. Porque sim.
Porque tu levaste a chave
Da porta do medo feroz
Que me separava de mim e que fazia, ah se fazia…
Que nesta loucura cândida
Das palavras perdidas
Eu ficasse mais perto de ti.
E agora? Agora vou-me.
Porque finalmente é dia
E eu apaguei a escuridão em mim.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pedaço de mim

Em ti ficou um pedaço de mim. Um pedaço da minha loucura mais ímpia. E ao mesmo tempo mais pura. Queria ter-te aqui no acordar da noite. Mais uma noite cheia de tudo e de nada. Vazia de ti.
Não fiques, não voltes. Onde quer que vás, não me deixes. Sedimentaste a loucura em mim… Sem retorno possível. Abriste a porta à falta que sinto de ti. E agora que foste, que te foste… porque teimas em ficar em mim?!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Subam e encontrem o paraíso em Lisboa


Chiu. Não digas mais nada. Fiquemos em silêncio. Neste silêncio ensurdecedor das nossas ideias. Deixa-me ser ocupa. A ocupa dos teus sonhos. Como o ocupa do Quintal, que afinal arrenda, mas continua a acreditar viver na ilegalidade.
Vivamos à margem da lei. Dessas leis que outros criaram e escreveram como certas. Como se a verdade fosse só uma. Mais fria. Mais crua. Mais real. Mas a verdade é um manto de retalhos que apenas pela sua conjugação fazem sentido.
Chiu. Não fales mais. Deixa-me ouvir o som das galinhas no Quintal. Esse paraíso na cidade em que tudo pode ser real. E meo.
Por entre rostos, rastas, jambés e guitarras, a sinfonia das cores não para.
E lá vai mais um risco. Um e depois outro. Em plena comunhão com o cheiro a erva que paira. Nada mais se quer. Com o aditivo do desejo, o banquete está completo. Tu sorris. Dizes que gostas de mim. E por hoje chega. Por hoje sabes-me bem. E o quintal em Lisboa preenche a minha necessidade de natureza.
(e às vezes não é preciso mais nada)
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Hora marcada?


Se alguém marcou a hora? Não sei.
Se o dia estava escrito? Para quê?
Sem saber quem eras, perguntei.
Sorriste. Lentamente me deste o que te pedi.
Falaste. Encantaste. Ouvi.
Joguei como sempre fiz.
Sem saber que o jogo, um dia, se viraria contra mim.
E como quem chega, parti.
Para fumar o cigarro que te pedi.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Inversão


O que é que queres?

Vodka limão”, disse ela.

A noite já ia longa em misturas. “ Consegues tudo o que queres?”. “Sim”. Ela sorriu. Ele falou-lhe ao ouvido. Passou-lhe a mão pelo cabelo. Vai-não-vai. Na novidade do beijo experimentado que ainda não se deu, ainda havia o friozinho na barriga, a pequena emoção, quase adrenalina.

Nós fomos feitos um para o outro, sabias?”. “Sei isso há anos”.

Afinal, o som do olhar tinha dito que sim muito cedo na noite. Aquele sim com cheiro a “vai acontecer”. Ele sabia. Ela sempre soube. Não podiam fugir, mas deviam… “Anda”, pegou-lhe na mão, e dali saíram, para longe dos olhares atentos e expectantes. Hoje não queriam plateia. Pelo menos aquela. Dançaram. E dançaram. Preparando o inevitável. Era uma questão de tempo, tão previsível como o sol nascer. Alimentaram, por entre olhares fogosos e sussurros indiscretos, o desejo até ao limite humanamente suportável.

Beijaram-se longa e repetidamente. E sentiram-se. Fizeram amor sem ser preciso tocar. Já ninguém importava. Ar puro. Beijo excitado. Vista sobre o rio. “ E agora?”. “Beijo-te outra vez”. O tempo perdeu-se. Eles perderam-se no tempo. Desejaram que o tempo não mais passasse. Ele agarrou-lhe na mão, mais uma vez, e conduziu-a. Lá fora nem o frio os acordava. A viagem pareceu curta. A memória da viagem foi curta. Desta vez já não foi preciso dizer, não foi necessário pedir. E muito menos responder.

Era a certeza inabalável de uma loucura, tão saudável quanto demente. Uma loucura incipiente junto à bebedeira dos sentidos. Dos corpos nus no chão. Do adormecer na cama de exaustão de tanto prazer. O que quer que fosse…era como se não houvesse amanhã.

Mas havia. O amanhã chegou e a sua luz cruel não lhes perdoou.

Eu não acredito!”. Sim, sim… a realidade dura e fria. Ainda grogue mas já por demais implacável. “Anda cá”, disse com voz doce de quem quer o seu calor. Mas agora, ela já não foi. A lucidez dolorosa de quem quer mas sabe que não pode. Já havia demasiados cacos para apanhar. Para apanhar antes de ir. Noutra vida, ela teria ficado. Na vida que viveu na noite anterior. Aquela plataforma alternativa de existência fugaz. Nessa outra vida, em que não haveria amanhecer. Vestiu-se a custo. Apanhou as roupas e bocados dela em divisões diferentes. A casa era grande. Já à porta do elevador, ela ainda regressou, para um último beijo. Sim, “o último” beijo. Porque o seria.

A manhã foi ainda mais cruel. Não lhe perdoou os pecados, aquelas loucuras momentâneas. Mas o sorriso dos seus lábios tinha um toque de esperança. Aliás, que diferença fazia?! A certeza de que tudo seria igual já ela possuía. A dúvida de uma mudança, inquietante, que piorasse tudo seria sempre uma possibilidade. Porque não permitir-se prolongar um pouco mais aquela sensação? Aquele calor que sabia jamais chegaria a aquecer. Como aquele sol de inverno. Brilhante, mas insípido.

Já não era tempo de novidades, nem de certezas. Estava consciente de que aquele não era um caminho. Não chegava a lado nenhum. Era somente, como tantos outros, mais um beco sem saída. E assim entrou, deu à chave e seguiu. Nem pensou. Limitou-se a conservar, na viagem, o doce feeling que o prazer deixara emprenhado na pele. E antes de estacionar, sorriu, fazendo a tão acostumada inversão de marcha.

Ansiedade


O aperto inexplicável acompanha a sensação de que falta alguma coisa. A ansiedade outrora constante regressa hoje de sobressalto. Sonho inquietante que deixa a angústia no peito, sem saber porquê. A rapidez desastrada de quem quer chegar rápido, antes, já atrapalha os sentidos pouco lúcidos. Tanta pressa para chegar onde, aonde, a quem!?! Agosto na cidade são 8 minutos, não mais. É o melhor dos dois mundos juntos num dia na barafunda da metrópole, mas agora sem barafunda. Já não me lembrava de quanto te sentia. Já não recordava a falta que me fazias. Verdadeiras saudades. E a ansiedade, essa, era por ti. A pressa galopante era toda e só para te ver. Hoje percebi.