Hoje sinto a minha
alma nostálgica, repousante num corpo que comeu demasiados nigiris, sushi rolls, makis
e guiozas no restaurante em frente –
ou como dizia a minha chefe M.: “vamos
comer sushi como se não houvesse amanhã”! – e que nem os dois cafés curtos
e o slim fumado com prazer fez
ressuscitar.
Dormiria agora uma
sesta longa, numa espreguiçadeira sob o sol longínquo de Sulawesi perdido no meio do Pacífico. Mergulharia então nas
profundezas de um oceano sem medo do amanhã ou mesmo de que ele não chegue. E
esperaria por ti ao pôr-do-sol quente e alaranjado, com toques de um roxo sem
igual. Faríamos então amor sem fim até ao sol nascer e a fome e o calor nos
impedirem de continuar no bungalow de
palhota improvisado.
Não mais quero
regressar à azáfama de uma cidade, ainda que maravilhosa e com reflexos de
paraíso na luz que emana, mas cinzenta nas cores das almas e suas mentalidades.
O stress que nos corre nas veias,
entope-nos como o colesterol de um homem de 45 anos que fuma dois maços de SG por dia. Há mais vida, há sempre mais
vida…
Hoje a minha mesa
de faia podia ser uma areia branca fina, na qual me deito e deleito enquanto te
vejo ao longe, a vestir o fato de mergulho e a preparares-te para mais uma
exploração em descoberta de cores e espécies novas. Esperarei por ti ao som do
meu “cisne negro”, que me faz reflectir sobre a previsibilidade daqueles que se
pensam ser acontecimentos imprevisíveis.
Ainda oiço ao longe
o toque do que foi a minha vida, antes disto, antes de ti. As saudades que
deixei no coração de quem não pude trazer para esta aventura sem hora, dia ou
fim marcado.
Recordo aquele
arroz doce com sabor a Portugal, os inúmeros jantares nas casas deles, o Verduzzo fresco e as ressacas sem fim, o
tinto da Pam em Siena, na promoção de
um euro que nos fez arrepender de não ter mais…os gorros sentados em pleno
Palio, a relembrar a infância, a salada no pão que repartimos com os pombos, o
sorriso, não o teu, mas o dele, de uma magia e simplicidade inigualáveis, a
serenidade que me davas e que eu não soube compreender, o marrochino freddo depois do almoço na mensa, na Dante de todos
nós.
As idas e as
vindas, os cigarros ao longo da Lungarno,
as partidas e as chegadas, as correrias em Pisa Centrale, o cheiro do teu corpo que só eu sentia, o beijo que
eu não queria que tu não me desses, a dificuldade em disfarçar a vontade de ser
tua, os Bottellione na Garibaldi, os encontros fortuitos quase
furtivos na Borgo Stretto, todos os
lugares em que não estavas, mas eu te sentia. Mas também os outros momentos. Os
só meus e dele, a chuva quente de inverno, o “knocking on heaven's door” no kebab
dos vampirii, os sonhos perdidos com
o nascer do dia, o sabor amargo das aventuras que sabíamos proibidas.
Sem dúvida tempos
de emoções intensas, amores que nunca foram, paixões que não deixaram de ser. Já
no fim, os teus olhos reflectiam o Arno
em plena Ponte di Mezzo, e apesar do
tom saudoso de despedida, como quem faz a conclusão na dissertação do que sabe
ser o último exame do liceu, não deixaste de me lançar aquele charme quente que
me fez ter a certeza que foste uma boa escolha….uma boa passagem. Tentaste
explicar sentimentos que não tinham explicação por entre trilhos de luzes
traçados na minha imaginação. Hoje, naquela noite, já nada tinha importância. Eu
perdoava-te tudo. Acreditavas na altura que por não me quereres ver, me
estarias sempre a encontrar… a vida assim…
“Lu!”, ouvi. “Não
acordes”, pensei eu no meu estado de vigília, na latência de quem quase alcança
o sono. Mas o beijo molhado precipitou o meu regresso à realidade….como eu
desejava, por instantes, que fosse teu…, não teu, mas dele, aquele beijo.
Suave e lentamente
abri os olhos, e aceitei a minha escolha. Eras tu agora o meu destino, aquele
que eu tracei. Havia encontrado o meu “cisne negro” e não lamentava um segundo
da minha decisão de partir contigo. O som do teu olhar completava o vazio que
anos antes ele deixara em mim. O aroma do teu toque tinha o poder de me aquecer
no cinzento da cidade como o sol de Sulawesi.
Viveria contigo para sempre num bungalow empalhado sem precisar de
absolutamente mais nada…mais ninguém…
Assaltava-me a
mente o sonho de há pouco…afinal não seria verdade, não estavas certo….pois a vida
assim… não quis!
(Como alguém escrevia noutro lugar… “A vida é feita de
pneus e alcatrão”… Mas não só…)