quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Porque choras?


Poderei um dia voltar a cometer o pecado de te querer? Poderei lutar contra mim própria?

Por longe que estejas, nunca foste pó.

O sorriso que tantas vezes me desarmou. O corpo que conheço como um mapa do tesouro por mim desenhado.

Porque choro eu?

Somos escravos de um destino que não traçámos, de um amor que não quisemos.

Para onde foi todo o desejo que sentíamos?

Deste-me tanto e tanto me tiraste…será o balanço a fazer o de que ainda existes?!

Existes na memória da minha pele, não já na minha cabeça.

Porque choro eu?

Ver-te nunca é uma digestão fácil de fazer, mas antes uma refeição farta em tarde de calor alentejana.

Não matas, mas ainda móis.

Como a saudade desses tempos intensamente leves que eram vividos com a beleza de um horizonte ainda longínquo. Tão longínquo.

Porque choram as saudades?

Da simplicidade tão difícil de alcançar na idade dos porquês.

Quando ainda não sabíamos o que a vida nos reservava, enquanto discutíamos por tudo o que hoje já não importa.

Andámos tantas vezes em círculos loucos de aventuras sem sentido…

Porque choraste tu?

Esperando que, como sempre, o círculo se fechasse e nos empurrasse novamente para os braços um do outro.

Que o ímpeto de nos termos se sobrepusesse a toda a dor do nosso afastamento.

Ainda lutaste, mesmo depois de eu ter desistido. Como se tudo fosse possível.

Não grites. Não chores.

Eu sei, eu sei, desta vez o círculo não se fechou.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Um do outro


Foi aí que te vi. Nesse momento terno em que não te preocupaste com o mundo em redor. Quando te entregaste na fragilidade de uma paixão inevitável. Não mais fingiste que não te importavas com o rumo imprimido à nossa relação e deixaste que as coisas fluíssem. O ritmo alucinante do teu toque dizia publicamente que me querias. Deixaste de lutar contra as nossas evidências históricas e ficou claro que iríamos permitir-nos um pouco mais. Estávamos a redescobrir-nos como duas crianças que terminam a primária e estão ansiosas pelo novo ciclo e a novidade de uma turma por conhecer.

Começámos a aprender uma outra linguagem para comunicarmos entre nós. Depressa um pouco mais se tornou muito. Ensinaste-me todos os teus truques, as tuas expressões de alegria e de desespero. Eu ensinei-te muitos dos meus 1001 sorrisos sem no entanto terminar com o mistério. Aprendemos a ler o olhar um do outro e a saber o que o outro sentiria mesmo antes de suceder. Fazias-me querer ser melhor a cada dia, não que eu não fosse suficiente, mas porque podia ser sublime. Eu não te deixava cair na rotina e contrariava as tuas tentativas de acomodação ao ritmo da vida. Era uma dança constante, só mudava a música que nos acompanhava.

Juntos fazíamos, sem dúvida, o mundo girar, tornando-o melhor. Pelo menos, acreditávamos nisso. Valia a pena acordar todos os dias e levantar o estore. Fizesse chuva ou fizesse sol, tudo era vivido na intensidade de um sorriso, como se o amanhã fosse uma verdadeira dádiva. E era.

Até àquele dia. O dia em que, pela primeira vez, lá fora o sol não nasceu e a escuridão se instalou. Nesse dia o mundo parou irremediavelmente. Não esse, mas o nosso. O nosso mundo deixou, para sempre, de girar. Tu foste embora, sem apelo nem aviso. Deixaste-me descalça num mundo cheio de espinhos, sem a menor noção de caminho. Não mais te vi, não mais te senti ou cheirei. Vejo-te sempre que fecho os olhos, porque em mim continuarás. Mas não é a mesma coisa, jamais será…

Dava tudo por mais um dia nesse mundo encantado contigo.

Não sei o que faria, nem tão pouco o que diria. Mas sei que, no fim do dia, não te deixaria ir sozinho. E se não fossemos juntos, então dir-te-ia para me esperares do outro lado, que o rio é escuro e profundo, mas não há nada que não se ultrapasse. Sei que me dirias que não, assim como tu sabes que eu o faria na mesma.

E é disso que sinto falta, da minha outra metade, da qual me separaram nessa outra vida.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cor cinza


Tantas vezes pensamos que o mais difícil é falar e confessar a traição ou a mentira; quando afinal isso é o ato libertador, o que transporta uma parte do peso da culpa para o outro. Por vezes, é mais difícil calar e viver a vida com a sombra constante do erro que se cometeu e guardar a dor só para si.

Mas quem sou eu para julgar?! Quem sou eu para ver os outros a preto e branco se a vida, essa, vive-se no cinzento? Não o cinzento da tristeza inerte ou da ausência de emoção, mas o cinzento das almas humanas que teimam em querer saltar do branco para o preto como se a gravidade fosse apenas uma piada. Porque é que afinal ansiamos tanto por chegar ao branco quando estamos no preto, e vice-versa, se é no cinzento que a vida acontece? É no cinzento que caímos redondos após um salto ambicioso, mas é também aí que nos levantamos mais fortes do que dantes. É no cinzento que estão os seres pensantes e não apenas os autómatos. É aqui que nos apaixonamos por todos os epítetos sobre os quais as mães nos avisaram. É no cinzento que estamos constantemente a gravar cenas sem realizador ou assistentes de produção. Aqui não há certo ou errado, nem verdade ou mentira. Aqui há apenas a perceção de cada um sobre cada uma destas coisas.

O cinzento encerra em si a falta de clareza do branco ou do preto, mas em compensação, permite a beleza de viver em harmonia com a imperfeição do Homem, de a amar e desejar na sua plenitude e com toda a intensidade.

Assim farei


"Se ele lhe pudesse deixar uma mensagem, qual é que seria?"

Silêncio.

"Provavelmente diria: não deixes nada por viver!"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O dissecar de um beijo (ou mais do que um beijo II)

Perguntaram-me qual foi o melhor beijo que experimentei. Não tive dificuldades em escolher, nem tão pouco quaisquer dúvidas. Não foi o melhor por ser o primeiro, nem por ser o último. Foi simplesmente aquele. Nem sequer foi um beijo que dei, foi-me dado.
O sítio era feio. Uma rua suja e perpendicular, com lixo por recolher, acima do bar escolhido por não ser nenhum dos nossos. Era território neutro, onde ninguém nos conhecia. Perguntaste porque é que eu tinha sempre tanta pressa e disseste que me ias ensinar o que era um beijo... sem pressas. Acedendo, encostei-me levemente à parede e coloquei as mãos atrás das costas, como quem estava recetivo ao que quer que viesse a seguir. Sem me tocar, aproximaste-te, mas não demasiado. Aproximaste os teus lábios dos meus, de tal modo que sentia a tua respiração. O teu respirar marcava o ritmo do meu coração e ainda eras só um desejo. Aí o tempo deixou de contar. Suavemente, depois de segundos que foram horas, deixaste os teus lábios acariciarem os meus. Aí comecei a voar. Mexias lentamente os lábios contra os meus enquanto enlouquecias os meus poros. Imóvel de desejo, lá estava eu. Aos poucos decidiste começar a abrir os lábios e deixar a energia fluir. Era tanta a energia contida nos nossos corpos que poderíamos flutuar. Beijaste-me lenta e demoradamente por horas sem fim, que podem bem ter sido meros segundos, já que perdera a noção do tempo e do espaço. Sentia-te quente através da tua língua e já não pensava. Os movimentos lentos da forma como me beijavas inundaram-me de energia eletrizante. Todas as minhas extremidades estavam alerta e queriam mais. Já tinha viajado para um mundo distante, guiada pelos teus sentidos. As tuas mãos não me tocaram uma única vez, porém, sentia-me inundada de ti. Já estava longe, num mar de prazer que me fazia esquecer o sítio feio e sujo em que ainda estávamos…
Terminaste quando quiseste e nem chegaste a tocar-me. Fisicamente diga-se – pois tocaste a minha alma com a energia do teu beijo lento de uma forma nunca antes experimentada. Desde esse dia, jamais esqueci aquele beijo dado, ao qual nenhum outro foi ainda sequer capaz de se aproximar.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

E cai a ficha...


Há coisas que realmente importam. E depois há as outras.

Não importa os anos que estivemos afastados, mas apenas os que estivemos juntos.