quarta-feira, 23 de abril de 2014

O poder do beijo


Não digas mais nada. A noite já não precisa disso, de tão perfeita que foi. Eu não preciso disso. Nem de sinos, balões ou serpentinas. Preciso só que me beijes já, como se não houvesse mais nada no mundo que importasse. Como se este fosse o único motivo pelo qual a terra ainda gira. Beija-me já ou terei de te beijar eu. Estes segundos de espera estão a deixar-me louca, como quem circula sem travões em reta de autoestrada. Sem limpa para-brisas em noite de tempestade. Faz alguma coisa já ou não respondo por mim. Mais um minuto é tempo de sofrimento infinito. Os teus lábios nos meus é a única ideia que povoa a minha mente. O meu corpo. Sem espaço para mais nada. Como um muro intransponível que se depara no nosso caminho. Nada passa para além dele. Eu sem ti, sem o teu beijo, não passo para além. Então porque esperas? Esquece o minuto que se segue e eterniza este segundo em mim, transformando a promessa de beijo no beijo sentido que a noite envolveu desde o início.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Imobilidade

É uma consequência, um efeito e, simultaneamente, um defeito da natureza humana. Esse fantasma que paira sobre os mais ociosos ou, simplesmente, desgostosos. Quando nos encontramos perdidos tendemos a pontapear as pedrinhas que deixámos a sinalizar o caminho. Esse caminho que agora pode já não ter volta.

O ser humano, confrontado com uma decisão importante que deve tomar, hesita. Todos os pontos de viragem representam mudanças que pela sua mera definição são, sempre, capazes de nos angustiar. E se não é a angústia, é a ansiedade de estarmos conscientes de que estamos a procrastinar. Não porque não queremos, não porque não nos apetece, mas porque não somos capazes. Jamais seremos capazes de nos lançar despojada e autonomamente para a frente de uma batalha que sabemos estar perdida. Mas perdida ou não, é um combate necessário, é a luta o verdadeiro objectivo e não o seu resultado. E contra o quê verdadeiramente lutaremos nós?

Lutamos contra o nosso medo de mudar, de imprimir na nossa vida uma mudança de página ou, até, de guião. Duro é o caminho através do qual escrevemos e deixamos que escrevam o nosso destino. Porém é razão de força e necessidade não nos deixarmos escorregar pelo ralo do lavatório da vida. Ultrapassar o nosso próprio obstáculo – a petrificação.

Cristalizamos em nós o medo e acreditamos que não vale mais a pena acreditar. Somos o nosso maior inimigo depois da conspiração que julgamos o mundo tecer contra nós. Desaprendemos a pedir ajuda e um dia, quando mais dela necessitamos, ficamos imóveis na nossa incapacidade de acção. Uma, duas, três, até que a mesma se torna crónica. Como uma verdadeira doença, que os medicamentos não curam; já só evitam a chegada da morte.