Não digas mais nada. A noite já não precisa disso, de tão perfeita que foi.
Eu não preciso disso. Nem de sinos, balões ou serpentinas. Preciso só que me
beijes já, como se não houvesse mais nada no mundo que importasse. Como se este
fosse o único motivo pelo qual a terra ainda gira. Beija-me já ou terei de te
beijar eu. Estes segundos de espera estão a deixar-me louca, como quem circula
sem travões em reta de autoestrada. Sem limpa para-brisas em noite de
tempestade. Faz alguma coisa já ou não respondo por mim. Mais um minuto é tempo
de sofrimento infinito. Os teus lábios nos meus é a única ideia que povoa a
minha mente. O meu corpo. Sem espaço para mais nada. Como um muro
intransponível que se depara no nosso caminho. Nada passa para além dele. Eu
sem ti, sem o teu beijo, não passo para além. Então porque esperas? Esquece o
minuto que se segue e eterniza este segundo em mim, transformando a promessa de
beijo no beijo sentido que a noite envolveu desde o início.
Às vezes onde tudo acaba é o exato momento onde tudo recomeça. Onde estou, quem sou, para onde vou....o que é que interessa?! Devaneios, sentimentos, encontros e desencontros...dentro e fora de mim. Hoje. Agora. Por aqui.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Imobilidade
É uma consequência, um efeito e, simultaneamente, um defeito da natureza
humana. Esse fantasma que paira sobre os mais ociosos ou, simplesmente,
desgostosos. Quando nos encontramos perdidos tendemos a pontapear as pedrinhas
que deixámos a sinalizar o caminho. Esse caminho que agora pode já não ter
volta.
O ser humano, confrontado com uma decisão importante que deve tomar,
hesita. Todos os pontos de viragem representam mudanças que pela sua mera
definição são, sempre, capazes de nos angustiar. E se não é a angústia, é a
ansiedade de estarmos conscientes de que estamos a procrastinar. Não porque não
queremos, não porque não nos apetece, mas porque não somos capazes. Jamais
seremos capazes de nos lançar despojada e autonomamente para a frente de uma
batalha que sabemos estar perdida. Mas perdida ou não, é um combate necessário,
é a luta o verdadeiro objectivo e não o seu resultado. E contra o quê
verdadeiramente lutaremos nós?
Lutamos contra o nosso medo de mudar, de imprimir na nossa vida uma mudança
de página ou, até, de guião. Duro é o caminho através do qual escrevemos e
deixamos que escrevam o nosso destino. Porém é razão de força e necessidade não
nos deixarmos escorregar pelo ralo do lavatório da vida. Ultrapassar o nosso
próprio obstáculo – a petrificação.
Cristalizamos em nós o medo e acreditamos que não vale mais a pena
acreditar. Somos o nosso maior inimigo depois da conspiração que julgamos o
mundo tecer contra nós. Desaprendemos a pedir ajuda e um dia, quando mais dela
necessitamos, ficamos imóveis na nossa incapacidade de acção. Uma, duas, três,
até que a mesma se torna crónica. Como uma verdadeira doença, que os
medicamentos não curam; já só evitam a chegada da morte.
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