Gagueja a noite. Estremece a fala. Treme antes de expulsar as palavras que
sabe difíceis. Não difíceis. Dolorosas. Mas sabe que não tem outra hipótese.
Ela não lhe dará outra hipótese.
Acompanham-se um ao outro por entre lugares que tão bem conhecem. O
caminho, esse, é novo. Começou agora. É breve o segundo que medeia o até amanhã
alheio e o segundo em que ele avança. Em direcção ao tabu e sem o atropelar,
demonstra, pela primeira vez, desejo de o quebrar. O caminho era longo. O tempo
não era infinito. Ela já estava cansada. Cansada de esperar. Deu-lhe até ao fim
do caminho. Andaram, mas apenas se seguiu o silêncio. Ela sentiu-se desiludida.
Jamais falaria, pensou. Jamais explicaria. Prestes estava a conformar-se que,
afinal, nunca saberia. E assim foi. A cobardia lúcida e a confusão (também)
aparente não permitiriam.
Último cigarro. Era o prazo. Não falas?! Não queres falar?! Chega. Não vou
esperar mais.
Adeus.
Subiu. Vestiu o pijama. Guardou para si o que no fim de contas não era
nada. Pura e simplesmente nada.
Em leve alvoroço interior, não teve tempo de acalmar. O toque súbito do
telemóvel fê-la despertar do automatismo dos pensamentos profundos.
Desce. Por favor. Preciso de te dizer.
Ela acedeu. Vestiu-se rápido. Desceu. Ela desejava saber. Não, compreender.
Ele voltou a gaguejar. A sussurrar minimamente por entre meias palavras. A
fracassar.
Ela voltou a subir. Era uma perda de tempo.
Já bastante incomodada, tentou esquecer algo que não poderia entender. Novo
toque. E voltou a tocar. Continuamente.
Agora já não pediu, implorou que descesse. Mendigou por uma derradeira
oportunidade, fazendo a promessa de que falaria. Mas falaria de quê?! Porquê?!
A intensidade e a demência da situação já não a deixavam pensar claro. Estava
exausta de tanta loucura. Mas que fazer?!! A voz do outro lado deu-lhe pena.
Ouvia o desespero, sentia-o a tremer. Ela própria já tremia de tamanha
ansiedade. Não iria. Iria?! Não será pior a dúvida? Ai…
O elevador parou novamente no rés-do-chão. Não tinha esperança que ele
falasse, apesar das promessas. Foi por descargo da sua própria consciência.
Teve medo então. Medo de fraquejar nas suas certezas, medo da atmosfera
poderosíssima. Ele avançou. Ela recuou. Encurralou-a contra a parede. Ela ficou
imóvel de medo. Ele não proferia palavras com nexo, mas a energia era avassaladora.
A energia saía-lhe dos poros. Era emoção feroz, coração aos pulos. Fechou os
olhos por momentos. Pelo segundo do pecado. Sentiu o leve toque dos seus
lábios, que repeliu.
Já tinha dito que não. Já tinha tentado explicar. Convencer. Convencer-se.
Ela não poderia deixar de recordar a si própria o quão rápido teria de fugir
daquela situação. Já tinha ido longe demais. Ela não abdicaria dos seus
princípios. Preferia poder viver consigo própria.
Lutando ferozmente contra os seus instintos, os desejos mais íntimos da
carne, resistiu a entregar-se à pura loucura que a esperava. Renegou o prazer
para poder fazer o que estava correcto. Perante o choro intermitente daquele
homem, que implorava por uma oportunidade, disse peremptoriamente que não.
“Eu quero estar contigo. Não é hoje,
é todos os dias da minha vida, em todo o lado, fazer tudo!”
“Isto é real, não é loucura”,
tremia chorando, como se o mundo já não existisse.
E ela tentou desesperadamente acreditar nisso.
E por acreditar…empurrou-o para fora do elevador. “Não pode ser. Não vai acontecer. Eu estou com uma pessoa, tu estás com
uma pessoa. Nós não podemos estar juntos.”
Fechou a porta e carregou no botão do seu andar.
Apesar de tudo, jamais ela disse que não sentia o mesmo que ele ou que não
tinha vontade de experimentar. O dilema era outro… Afinal, valerá a pena trocar
uma emoção ainda que fugaz pela seriedade moral que ninguém reconhece?!
Para seu conforto, ela diz a si mesma, ano após ano, que fez bem… que tudo
aquilo não passou de uma “ilusão”. Será?!?