sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ilusão


Gagueja a noite. Estremece a fala. Treme antes de expulsar as palavras que sabe difíceis. Não difíceis. Dolorosas. Mas sabe que não tem outra hipótese. Ela não lhe dará outra hipótese.

Acompanham-se um ao outro por entre lugares que tão bem conhecem. O caminho, esse, é novo. Começou agora. É breve o segundo que medeia o até amanhã alheio e o segundo em que ele avança. Em direcção ao tabu e sem o atropelar, demonstra, pela primeira vez, desejo de o quebrar. O caminho era longo. O tempo não era infinito. Ela já estava cansada. Cansada de esperar. Deu-lhe até ao fim do caminho. Andaram, mas apenas se seguiu o silêncio. Ela sentiu-se desiludida. Jamais falaria, pensou. Jamais explicaria. Prestes estava a conformar-se que, afinal, nunca saberia. E assim foi. A cobardia lúcida e a confusão (também) aparente não permitiriam.

Último cigarro. Era o prazo. Não falas?! Não queres falar?! Chega. Não vou esperar mais.

Adeus.

Subiu. Vestiu o pijama. Guardou para si o que no fim de contas não era nada. Pura e simplesmente nada.

Em leve alvoroço interior, não teve tempo de acalmar. O toque súbito do telemóvel fê-la despertar do automatismo dos pensamentos profundos.

Desce. Por favor. Preciso de te dizer.

Ela acedeu. Vestiu-se rápido. Desceu. Ela desejava saber. Não, compreender.

Ele voltou a gaguejar. A sussurrar minimamente por entre meias palavras. A fracassar.

Ela voltou a subir. Era uma perda de tempo.

Já bastante incomodada, tentou esquecer algo que não poderia entender. Novo toque. E voltou a tocar. Continuamente.

Agora já não pediu, implorou que descesse. Mendigou por uma derradeira oportunidade, fazendo a promessa de que falaria. Mas falaria de quê?! Porquê?! A intensidade e a demência da situação já não a deixavam pensar claro. Estava exausta de tanta loucura. Mas que fazer?!! A voz do outro lado deu-lhe pena. Ouvia o desespero, sentia-o a tremer. Ela própria já tremia de tamanha ansiedade. Não iria. Iria?! Não será pior a dúvida? Ai…

O elevador parou novamente no rés-do-chão. Não tinha esperança que ele falasse, apesar das promessas. Foi por descargo da sua própria consciência.

Teve medo então. Medo de fraquejar nas suas certezas, medo da atmosfera poderosíssima. Ele avançou. Ela recuou. Encurralou-a contra a parede. Ela ficou imóvel de medo. Ele não proferia palavras com nexo, mas a energia era avassaladora. A energia saía-lhe dos poros. Era emoção feroz, coração aos pulos. Fechou os olhos por momentos. Pelo segundo do pecado. Sentiu o leve toque dos seus lábios, que repeliu.

Já tinha dito que não. Já tinha tentado explicar. Convencer. Convencer-se. Ela não poderia deixar de recordar a si própria o quão rápido teria de fugir daquela situação. Já tinha ido longe demais. Ela não abdicaria dos seus princípios. Preferia poder viver consigo própria.

Lutando ferozmente contra os seus instintos, os desejos mais íntimos da carne, resistiu a entregar-se à pura loucura que a esperava. Renegou o prazer para poder fazer o que estava correcto. Perante o choro intermitente daquele homem, que implorava por uma oportunidade, disse peremptoriamente que não.

Eu quero estar contigo. Não é hoje, é todos os dias da minha vida, em todo o lado, fazer tudo!

Isto é real, não é loucura”, tremia chorando, como se o mundo já não existisse.

E ela tentou desesperadamente acreditar nisso.

E por acreditar…empurrou-o para fora do elevador. “Não pode ser. Não vai acontecer. Eu estou com uma pessoa, tu estás com uma pessoa. Nós não podemos estar juntos.

Fechou a porta e carregou no botão do seu andar.

Apesar de tudo, jamais ela disse que não sentia o mesmo que ele ou que não tinha vontade de experimentar. O dilema era outro… Afinal, valerá a pena trocar uma emoção ainda que fugaz pela seriedade moral que ninguém reconhece?!

Para seu conforto, ela diz a si mesma, ano após ano, que fez bem… que tudo aquilo não passou de uma “ilusão”. Será?!?

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