Às vezes onde tudo acaba é o exato momento onde tudo recomeça. Onde estou, quem sou, para onde vou....o que é que interessa?! Devaneios, sentimentos, encontros e desencontros...dentro e fora de mim. Hoje. Agora. Por aqui.
domingo, 22 de março de 2015
Fizeste bem
Há sempre o dia em que o ciclo se fecha. O dia em que tudo o que vivemos ficou, de vez, lá no passado. O dia em que apenas podemos sorrir sobre o que nos uniu. Foi forte. Mas foi. Já não é. E isso dá o mote à conversação. Conversa de circunstância com sabor a estranheza. Aquela que se instalou entre nós por não mais nos falarmos. Na altura foi preciso. Mas já não o é. Sei que estamos tranquilos com as opções tomadas. Vejo que a vida te acentuou as rugas que não te via há uns meses, quem sabe anos. A vida marcou-te, em troca do que lhe tiraste. Em mim só ficou o bom. E voa, como as gargalhadas que dei ao teu lado. Foste a escolha certa, quando o precisei. Deste-me a liberdade que eu não encontrava em mais lado nenhum. Permitiste-me ser leve numa vida tão pesada. E eu flutuei. E depois caí. Mas caí na terra e depressa me levantei. Sem rancores ou ressentimentos. Abraçar-te-ia se pudesse, por todos os momentos únicos que contigo vivi. E é isso que verás em cada sorriso meu. E nada mais.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Pesado castigo
Por todos os momentos em que visualizaste a tua vida de forma diferente. Por todos os fechar de olhos em que nos viste, perfeitos, como dois erros que o universo juntou. Eu sonhei o teu toque, no abraço terno que a tua culpa afastou. Foram minutos divertidos antes da verdade demolidora. Como quem saboreia o prazer uma última vez antes de riscar o desejo louco. Foi tão rápido quanto injusto. Duas almas não se deviam largar assim. Na escuridão de um futuro insatisfeito. Inacabado.
Vamos juntos para um destino longínquo onde ninguém julgará as nossas opções. Deixemo-nos apaixonar pelo ideal sem mais. Em que tudo é luz e calor, e os nossos corpos levitam sem pressa, movidos por duas almas leves.
Não devíamos pagar um preço tão alto por sentirmos o incontrolável... Não devíamos ser castigados por sentir o que não escolhemos, nem pedimos. A lembrança da tua existência já é, pela vida fora, castigo suficiente.
Maior até que o adeus.
Vamos juntos para um destino longínquo onde ninguém julgará as nossas opções. Deixemo-nos apaixonar pelo ideal sem mais. Em que tudo é luz e calor, e os nossos corpos levitam sem pressa, movidos por duas almas leves.
Não devíamos pagar um preço tão alto por sentirmos o incontrolável... Não devíamos ser castigados por sentir o que não escolhemos, nem pedimos. A lembrança da tua existência já é, pela vida fora, castigo suficiente.
Maior até que o adeus.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
É escuro, este sítio
É de noite. Não, é escuro. Está escuro neste sítio estranho, onde o sol não brilha. É o vazio de luz a instalar-se. Num salão de baile onde não há música. Nem pessoas. As pessoas foram há muito. Fugiram para onde há luz. Não ficaram para ver a decadência das paredes frias. Sem tinta fresca há tantos anos. Os restos das festas loucas ainda permanecem. No bar só há garrafas vazias, sem água para as lavar. O chão estalado de festas mil conta as histórias de uma vida. Onde ontem havia luz, música e cor, hoje só há lixo pelos cantos, ausência de vida e nostalgia dos tempos idos. A escadaria de acesso ao salão é demasiado alta e os saltos altos da vida já dificultam a subida. Foram ficando cá em baixo, à porta, os poucos que ainda se interessaram por aquele sítio. A curiosidade do antigamente fê-los ir até lá na esperança de o boato ser isso mesmo... um boato. Mas não era. E ali já não havia nada. Nada que interessasse. Apenas na cabeça de alguns jazia a lembrança da alegria vivida, da energia alucinada, da atração química. As histórias de pele e de alma quente não haviam morrido, é certo. Mas a distância do tempo esbatera a memória, esvaziando a emoção sentida. Ali já nada viveria outra vez, pensou enquanto a lágrima escorria.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Porque choras?
Poderei um dia voltar a cometer o
pecado de te querer? Poderei lutar contra mim própria?
Por longe que estejas, nunca
foste pó.
O sorriso que tantas vezes me
desarmou. O corpo que conheço como um mapa do tesouro por mim desenhado.
Porque choro eu?
Somos escravos de um destino que
não traçámos, de um amor que não quisemos.
Para onde foi todo o desejo que
sentíamos?
Deste-me tanto e tanto me tiraste…será
o balanço a fazer o de que ainda existes?!
Existes na memória da minha pele,
não já na minha cabeça.
Porque choro eu?
Ver-te nunca é uma digestão fácil
de fazer, mas antes uma refeição farta em tarde de calor alentejana.
Não matas, mas ainda móis.
Como a saudade desses tempos
intensamente leves que eram vividos com a beleza de um horizonte ainda longínquo.
Tão longínquo.
Porque choram as saudades?
Da simplicidade tão difícil de
alcançar na idade dos porquês.
Quando ainda não sabíamos o que a
vida nos reservava, enquanto discutíamos por tudo o que hoje já não importa.
Andámos tantas vezes em círculos
loucos de aventuras sem sentido…
Porque choraste tu?
Esperando que, como sempre, o
círculo se fechasse e nos empurrasse novamente para os braços um do outro.
Que o ímpeto de nos termos se
sobrepusesse a toda a dor do nosso afastamento.
Ainda lutaste, mesmo depois de eu
ter desistido. Como se tudo fosse possível.
Não grites. Não chores.
Eu sei, eu sei, desta vez o
círculo não se fechou.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Um do outro
Foi aí que te vi. Nesse momento
terno em que não te preocupaste com o mundo em redor. Quando te entregaste na
fragilidade de uma paixão inevitável. Não mais fingiste que não te importavas
com o rumo imprimido à nossa relação e deixaste que as coisas fluíssem. O ritmo
alucinante do teu toque dizia publicamente que me querias. Deixaste de lutar
contra as nossas evidências históricas e ficou claro que iríamos permitir-nos um
pouco mais. Estávamos a redescobrir-nos como duas crianças que terminam a
primária e estão ansiosas pelo novo ciclo e a novidade de uma turma por
conhecer.
Começámos a aprender uma outra
linguagem para comunicarmos entre nós. Depressa um pouco mais se tornou muito.
Ensinaste-me todos os teus truques, as tuas expressões de alegria e de desespero.
Eu ensinei-te muitos dos meus 1001 sorrisos sem no entanto terminar com o
mistério. Aprendemos a ler o olhar um do outro e a saber o que o outro sentiria
mesmo antes de suceder. Fazias-me querer ser melhor a cada dia, não que eu não
fosse suficiente, mas porque podia ser sublime. Eu não te deixava cair na
rotina e contrariava as tuas tentativas de acomodação ao ritmo da vida. Era uma
dança constante, só mudava a música que nos acompanhava.
Juntos fazíamos, sem dúvida, o
mundo girar, tornando-o melhor. Pelo menos, acreditávamos nisso. Valia a pena
acordar todos os dias e levantar o estore. Fizesse chuva ou fizesse sol, tudo
era vivido na intensidade de um sorriso, como se o amanhã fosse uma verdadeira
dádiva. E era.
Até àquele dia. O dia em que,
pela primeira vez, lá fora o sol não nasceu e a escuridão se instalou. Nesse
dia o mundo parou irremediavelmente. Não esse, mas o nosso. O nosso mundo
deixou, para sempre, de girar. Tu foste embora, sem apelo nem aviso.
Deixaste-me descalça num mundo cheio de espinhos, sem a menor noção de caminho.
Não mais te vi, não mais te senti ou cheirei. Vejo-te sempre que fecho os
olhos, porque em mim continuarás. Mas não é a mesma coisa, jamais será…
Dava tudo por mais um dia nesse
mundo encantado contigo.
Não sei o que faria, nem tão
pouco o que diria. Mas sei que, no fim do dia, não te deixaria ir sozinho. E se
não fossemos juntos, então dir-te-ia para me esperares do outro lado, que o rio
é escuro e profundo, mas não há nada que não se ultrapasse. Sei que me dirias
que não, assim como tu sabes que eu o faria na mesma.
E é disso que sinto falta, da
minha outra metade, da qual me separaram nessa outra vida.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Cor cinza
Tantas vezes pensamos que o mais
difícil é falar e confessar a traição ou a mentira; quando afinal isso é o ato
libertador, o que transporta uma parte do peso da culpa para o outro. Por
vezes, é mais difícil calar e viver a vida com a sombra constante do erro que
se cometeu e guardar a dor só para si.
Mas quem sou eu para julgar?!
Quem sou eu para ver os outros a preto e branco se a vida, essa, vive-se no
cinzento? Não o cinzento da tristeza inerte ou da ausência de emoção, mas o
cinzento das almas humanas que teimam em querer saltar do branco para o preto
como se a gravidade fosse apenas uma piada. Porque é que afinal ansiamos tanto
por chegar ao branco quando estamos no preto, e vice-versa, se é no cinzento
que a vida acontece? É no cinzento que caímos redondos após um salto ambicioso,
mas é também aí que nos levantamos mais fortes do que dantes. É no cinzento que
estão os seres pensantes e não apenas os autómatos. É aqui que nos apaixonamos
por todos os epítetos sobre os quais as mães nos avisaram. É no cinzento que
estamos constantemente a gravar cenas sem realizador ou assistentes de
produção. Aqui não há certo ou errado, nem verdade ou mentira. Aqui há apenas a
perceção de cada um sobre cada uma destas coisas.
O cinzento encerra em si a falta
de clareza do branco ou do preto, mas em compensação, permite a beleza de viver
em harmonia com a imperfeição do Homem, de a amar e desejar na sua plenitude e com
toda a intensidade.
Assim farei
"Se ele lhe pudesse deixar uma mensagem, qual é que seria?"
Silêncio.
"Provavelmente diria: não deixes nada por viver!"
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
O dissecar de um beijo (ou mais do que um beijo II)
Perguntaram-me qual foi o melhor beijo que experimentei. Não tive
dificuldades em escolher, nem tão pouco quaisquer dúvidas. Não foi o melhor por
ser o primeiro, nem por ser o último. Foi simplesmente aquele. Nem sequer foi
um beijo que dei, foi-me dado.
O sítio era feio. Uma rua suja e perpendicular, com lixo por recolher,
acima do bar escolhido por não ser nenhum dos nossos. Era território neutro,
onde ninguém nos conhecia. Perguntaste porque é que eu tinha sempre tanta
pressa e disseste que me ias ensinar o que era um beijo... sem pressas.
Acedendo, encostei-me levemente à parede e coloquei as mãos atrás das costas,
como quem estava recetivo ao que quer que viesse a seguir. Sem me tocar,
aproximaste-te, mas não demasiado. Aproximaste os teus lábios dos meus, de tal
modo que sentia a tua respiração. O teu respirar marcava o ritmo do meu coração
e ainda eras só um desejo. Aí o tempo deixou de contar. Suavemente, depois de
segundos que foram horas, deixaste os teus lábios acariciarem os meus. Aí
comecei a voar. Mexias lentamente os lábios contra os meus enquanto
enlouquecias os meus poros. Imóvel de desejo, lá estava eu. Aos poucos
decidiste começar a abrir os lábios e deixar a energia fluir. Era tanta a energia
contida nos nossos corpos que poderíamos flutuar. Beijaste-me lenta e
demoradamente por horas sem fim, que podem bem ter sido meros segundos, já que
perdera a noção do tempo e do espaço. Sentia-te quente através da tua língua e
já não pensava. Os movimentos lentos da forma como me beijavas inundaram-me de
energia eletrizante. Todas as minhas extremidades estavam alerta e queriam
mais. Já tinha viajado para um mundo distante, guiada pelos teus sentidos. As
tuas mãos não me tocaram uma única vez, porém, sentia-me inundada de ti. Já
estava longe, num mar de prazer que me fazia esquecer o sítio feio e sujo em
que ainda estávamos…
Terminaste quando quiseste e nem chegaste a tocar-me. Fisicamente diga-se –
pois tocaste a minha alma com a energia do teu beijo lento de uma forma nunca
antes experimentada. Desde esse dia, jamais esqueci aquele beijo dado, ao qual
nenhum outro foi ainda sequer capaz de se aproximar.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
E cai a ficha...
Há coisas que realmente importam. E depois há as outras.
Não importa os anos que estivemos afastados, mas apenas
os que estivemos juntos.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Hino ao não desperdício
É mais difícil esquecer o beijo que não se deu.
Porque o beijo que se deu, sentiu-se. E passou.
O beijo que não se deu, pensou-se. E perdurou.
Que nos seja leve
A lonjura da tua voz não afasta a proximidade dos meus pensamentos. Sai já
que eu não aguento nem mais um minuto desse cheiro ausente. Busco nas dezenas
de caras o teu rosto inquietante. Sorrio na serenidade de não te saber perto.
Na encruzilhada do caminho a minha placa não tinha o mesmo nome da tua. Que
nos seja leve a incerteza do destino. Da decisão tomada. E que saibamos ser
felizes quando nada mais há a fazer. Até um dia...
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Mais do que...
Noite dentro no bairro do costume, nesse dia totalmente novo. Dobraram a
esquina de uma perpendicular escura, suja e gasta pelo tempo. "Porque tens tanta pressa?"
Perguntou ele. "Vou ensinar-te a não
teres pressa." disse, encostando-a à parede sem esperar pela resposta.
Colocando as mãos atrás das costas, ela sorriu num gesto condescendente,
como quem aceita os ensinamentos que está prestes a receber.
Ele inclinou-se sobre ela e, com as mãos apoiadas na parede atrás dela,
foi-se aproximando lentamente. Tão lentamente que ela sentia o respirar dele
sem sentir ainda o toque do seu corpo. Ouviram o respirar um do outro durante
algum tempo – ele provocava-a com a espera; ela deixou-se ir, viajando sem sair
do sítio. A energia dos corpos já se sentia e ainda nem se tinham tocado. A
temperatura das almas subia vertiginosamente e parecia que o coração lhe ia saltar do peito. Mas sobreviveu...e, mais do que isso, viveu intensamente aquele momento.
….um beijo
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Tudo ou nada
Ela saiu do táxi, chegada do Europa, e tirou as chaves da mala. Sentado à
porta do prédio lá estava ele. A quem chamara tantas coisas. A quem desejara e
odiara num ápice. Ele esperava-a há horas. "O que é que estás aqui a fazer?", era a pergunta óbvia. "Preciso de falar contigo. De te ver."
Ela estava um misto de estupefacta e assustada. Sob um estado que já não era bom... "Só podes estar doido. Em delírio!", disse-lhe.
"Sai da frente." O tom era seco e assertivo.
Empurrou-o enquanto abria a porta pesada, de ferro, da sua entrada. Ele ainda segurou a porta com o braço e ela fez-lhe o último olhar decisivo antes de forçar o fecho.
Em direção ao elevador, ainda ia atordoada. "Mas o que é que este tipo estava aqui a fazer?! Ele achava mesmo que eu lhe ia dizer que sim?! Depois de tudo?!"
Respirou fundo. Inspirou e expirou lentamente. Ficou um minuto a tomar consciência de si própria. Afinal, no momento do "tudo ou nada" ela escolheu o tudo. Sim, ela só queria ter o tudo. Nada mais lhe servia. E podia agora dormir descansada, na certeza de, mais uma vez, ter tomado a decisão certa.
Ela estava um misto de estupefacta e assustada. Sob um estado que já não era bom... "Só podes estar doido. Em delírio!", disse-lhe.
"Sai da frente." O tom era seco e assertivo.
Ele afastou-se ligeiramente, mas, deliberadamente, não o suficiente para
ela poder passar. "Eu sei que estás
fodida comigo. Eu sei. Mas vais dizer que não sentes nada, que eu não estou a
sentir nada agora?!"
Ela tremeu. A energia dele não lhe era indiferente. Ainda não. O olhar, o
sorriso. Ela podia muito bem dizer-lhe "Claro que eu sinto alguma coisa. Eu quero-te. Quero-te muito!",
que seria tudo verdade.
Mas era o momento do tudo ou nada.
E ela teve de lhe repetir "Sai.
Desaparece. Não te quero voltar a ver! Achei que tinha sido clara... Faz o
favor de esquecer que eu existo!!" Empurrou-o enquanto abria a porta pesada, de ferro, da sua entrada. Ele ainda segurou a porta com o braço e ela fez-lhe o último olhar decisivo antes de forçar o fecho.
Em direção ao elevador, ainda ia atordoada. "Mas o que é que este tipo estava aqui a fazer?! Ele achava mesmo que eu lhe ia dizer que sim?! Depois de tudo?!"
Enfim... Claramente ele precisava disto. E provavelmente ela também.
Entrou no elevador e carregou para subir. Meteu a chave à porta. Ia finalmente
entrar em casa depois de uma noite que se tornara demasiado longa. Com o fechar
da porta encerraria, simbolicamente, muito mais do que um dia.Respirou fundo. Inspirou e expirou lentamente. Ficou um minuto a tomar consciência de si própria. Afinal, no momento do "tudo ou nada" ela escolheu o tudo. Sim, ela só queria ter o tudo. Nada mais lhe servia. E podia agora dormir descansada, na certeza de, mais uma vez, ter tomado a decisão certa.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Ilusão
Gagueja a noite. Estremece a fala. Treme antes de expulsar as palavras que
sabe difíceis. Não difíceis. Dolorosas. Mas sabe que não tem outra hipótese.
Ela não lhe dará outra hipótese.
Acompanham-se um ao outro por entre lugares que tão bem conhecem. O
caminho, esse, é novo. Começou agora. É breve o segundo que medeia o até amanhã
alheio e o segundo em que ele avança. Em direcção ao tabu e sem o atropelar,
demonstra, pela primeira vez, desejo de o quebrar. O caminho era longo. O tempo
não era infinito. Ela já estava cansada. Cansada de esperar. Deu-lhe até ao fim
do caminho. Andaram, mas apenas se seguiu o silêncio. Ela sentiu-se desiludida.
Jamais falaria, pensou. Jamais explicaria. Prestes estava a conformar-se que,
afinal, nunca saberia. E assim foi. A cobardia lúcida e a confusão (também)
aparente não permitiriam.
Último cigarro. Era o prazo. Não falas?! Não queres falar?! Chega. Não vou
esperar mais.
Adeus.
Subiu. Vestiu o pijama. Guardou para si o que no fim de contas não era
nada. Pura e simplesmente nada.
Em leve alvoroço interior, não teve tempo de acalmar. O toque súbito do
telemóvel fê-la despertar do automatismo dos pensamentos profundos.
Desce. Por favor. Preciso de te dizer.
Ela acedeu. Vestiu-se rápido. Desceu. Ela desejava saber. Não, compreender.
Ele voltou a gaguejar. A sussurrar minimamente por entre meias palavras. A
fracassar.
Ela voltou a subir. Era uma perda de tempo.
Já bastante incomodada, tentou esquecer algo que não poderia entender. Novo
toque. E voltou a tocar. Continuamente.
Agora já não pediu, implorou que descesse. Mendigou por uma derradeira
oportunidade, fazendo a promessa de que falaria. Mas falaria de quê?! Porquê?!
A intensidade e a demência da situação já não a deixavam pensar claro. Estava
exausta de tanta loucura. Mas que fazer?!! A voz do outro lado deu-lhe pena.
Ouvia o desespero, sentia-o a tremer. Ela própria já tremia de tamanha
ansiedade. Não iria. Iria?! Não será pior a dúvida? Ai…
O elevador parou novamente no rés-do-chão. Não tinha esperança que ele
falasse, apesar das promessas. Foi por descargo da sua própria consciência.
Teve medo então. Medo de fraquejar nas suas certezas, medo da atmosfera
poderosíssima. Ele avançou. Ela recuou. Encurralou-a contra a parede. Ela ficou
imóvel de medo. Ele não proferia palavras com nexo, mas a energia era avassaladora.
A energia saía-lhe dos poros. Era emoção feroz, coração aos pulos. Fechou os
olhos por momentos. Pelo segundo do pecado. Sentiu o leve toque dos seus
lábios, que repeliu.
Já tinha dito que não. Já tinha tentado explicar. Convencer. Convencer-se.
Ela não poderia deixar de recordar a si própria o quão rápido teria de fugir
daquela situação. Já tinha ido longe demais. Ela não abdicaria dos seus
princípios. Preferia poder viver consigo própria.
Lutando ferozmente contra os seus instintos, os desejos mais íntimos da
carne, resistiu a entregar-se à pura loucura que a esperava. Renegou o prazer
para poder fazer o que estava correcto. Perante o choro intermitente daquele
homem, que implorava por uma oportunidade, disse peremptoriamente que não.
“Eu quero estar contigo. Não é hoje,
é todos os dias da minha vida, em todo o lado, fazer tudo!”
“Isto é real, não é loucura”,
tremia chorando, como se o mundo já não existisse.
E ela tentou desesperadamente acreditar nisso.
E por acreditar…empurrou-o para fora do elevador. “Não pode ser. Não vai acontecer. Eu estou com uma pessoa, tu estás com
uma pessoa. Nós não podemos estar juntos.”
Fechou a porta e carregou no botão do seu andar.
Apesar de tudo, jamais ela disse que não sentia o mesmo que ele ou que não
tinha vontade de experimentar. O dilema era outro… Afinal, valerá a pena trocar
uma emoção ainda que fugaz pela seriedade moral que ninguém reconhece?!
Para seu conforto, ela diz a si mesma, ano após ano, que fez bem… que tudo
aquilo não passou de uma “ilusão”. Será?!?
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Sofrimento sereno
Os teus olhos são como um reflexo, vidrado, de mim.
São o espelho da dor que sinto por te saber preso em ti.
Com os punhos do meu desespero, esmurro a parede que erigiste,
Não para mim, mas para ti
Como defesa infindável de um ser que não sabe mais nadar
Fora das águas do seu sofrimento, das ondas da sua loucura.
É o mar do meu descontentamento;
Mas antes, antes de tudo
É o vale desse tormento
Em que nos encontramos e nos desencontramos.
Ano após ano, vida após vida.
Para no fim olharmos um para o outro
E no reflexo já baço, dos olhos já cansados,
Docemente entrelaçarmos sorrisos
Recordando o sabor longínquo das nossas bocas
E assentirmos levemente, como quem sabe, que sim.
São o espelho da dor que sinto por te saber preso em ti.
Com os punhos do meu desespero, esmurro a parede que erigiste,
Não para mim, mas para ti
Como defesa infindável de um ser que não sabe mais nadar
Fora das águas do seu sofrimento, das ondas da sua loucura.
É o mar do meu descontentamento;
Mas antes, antes de tudo
É o vale desse tormento
Em que nos encontramos e nos desencontramos.
Ano após ano, vida após vida.
Para no fim olharmos um para o outro
E no reflexo já baço, dos olhos já cansados,
Docemente entrelaçarmos sorrisos
Recordando o sabor longínquo das nossas bocas
E assentirmos levemente, como quem sabe, que sim.
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