terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

É escuro, este sítio

É de noite. Não, é escuro. Está escuro neste sítio estranho, onde o sol não brilha. É o vazio de luz a instalar-se. Num salão de baile onde não há música. Nem pessoas. As pessoas foram há muito. Fugiram para onde há luz. Não ficaram para ver a decadência das paredes frias. Sem tinta fresca há tantos anos. Os restos das festas loucas ainda permanecem. No bar só há garrafas vazias, sem água para as lavar. O chão estalado de festas mil conta as histórias de uma vida. Onde ontem havia luz, música e cor, hoje só há lixo pelos cantos, ausência de vida e nostalgia dos tempos idos. A escadaria de acesso ao salão é demasiado alta e os saltos altos da vida já dificultam a subida. Foram ficando cá em baixo, à porta, os poucos que ainda se interessaram por aquele sítio. A curiosidade do antigamente fê-los ir até lá na esperança de o boato ser isso mesmo... um boato. Mas não era. E ali já não havia nada. Nada que interessasse. Apenas na cabeça de alguns jazia a lembrança da alegria vivida, da energia alucinada, da atração química. As histórias de pele e de alma quente não haviam morrido, é certo. Mas a distância do tempo esbatera a memória, esvaziando a emoção sentida. Ali já nada viveria outra vez, pensou enquanto a lágrima escorria.

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