quarta-feira, 19 de junho de 2013

Inversão


“O que é que queres?”

“Vodka limão”, disse ela.

A noite já ia longa em misturas. “ Consegues tudo o que queres?”. “Sim”. Ela sorriu. Ele falou-lhe ao ouvido. Passou-lhe a mão pelo cabelo. Vai-não-vai. Na novidade do beijo experimentado que ainda não se deu, ainda havia o friozinho na barriga, a pequena emoção, quase adrenalina.

“Nós fomos feitos um para o outro, sabias?”. “Sei isso há anos”.

Afinal, o som do olhar tinha dito que sim muito cedo na noite. Aquele sim com cheiro a “vai acontecer”. Ele sabia. Ela sempre soube. Não podiam fugir, mas deviam… “Anda”, pegou-lhe na mão, e dali saíram, para longe dos olhares atentos e expectantes. Hoje não queriam plateia. Pelo menos aquela. Dançaram. E dançaram. Preparando o inevitável. Era uma questão de tempo, tão previsível como o sol nascer. Alimentaram, por entre olhares fogosos e sussurros indiscretos, o desejo até ao limite humanamente suportável.

Beijaram-se longa e repetidamente. E sentiram-se. Fizeram amor sem ser preciso tocar. Já ninguém importava. Ar puro. Beijo excitado. Vista sobre o rio. “ E agora?”. “Beijo-te outra vez”. O tempo perdeu-se. Eles perderam-se no tempo. Desejaram que o tempo não mais passasse. Ele agarrou-lhe na mão, mais uma vez, e conduziu-a. Lá fora nem o frio os acordava. A viagem pareceu curta. A memória da viagem foi curta. Desta vez já não foi preciso dizer, não foi necessário pedir. E muito menos responder.

Era a certeza inabalável de uma loucura, tão saudável quanto demente. Uma loucura incipiente junto à bebedeira dos sentidos. Dos corpos nus no chão. Do adormecer na cama de exaustão de tanto prazer. O que quer que fosse…era como se não houvesse amanhã.

Mas havia. O amanhã chegou e a sua luz cruel não lhes perdoou.

“Eu não acredito!”. Sim, sim… a realidade dura e fria. Ainda grogue mas já por demais implacável. “Anda cá”, disse com voz doce de quem quer o seu calor. Mas agora, ela já não foi. A lucidez dolorosa de quem quer mas sabe que não pode. Já havia demasiados cacos para apanhar. Para apanhar antes de ir. Noutra vida, ela teria ficado. Na vida que viveu na noite anterior. Aquela plataforma alternativa de existência fugaz. Nessa outra vida, em que não haveria amanhecer. Vestiu-se a custo. Apanhou as roupas e bocados dela em divisões diferentes. A casa era grande. Já à porta do elevador, ela ainda regressou, para um último beijo. Sim, “o último” beijo. Porque o seria.

A manhã foi ainda mais cruel. Não lhe perdoou os pecados, aquelas loucuras momentâneas. Mas o sorriso dos seus lábios tinha um toque de esperança. Aliás, que diferença fazia?! A certeza de que tudo seria igual já ela possuía. A dúvida de uma mudança, inquietante, que piorasse tudo seria sempre uma possibilidade. Porque não permitir-se prolongar um pouco mais aquela sensação? Aquele calor que sabia jamais chegaria a aquecer. Como aquele sol de inverno. Brilhante, mas insípido.

Já não era tempo de novidades, nem de certezas. Estava consciente de que aquele não era um caminho. Não chegava a lado nenhum. Era somente, como tantos outros, mais um beco sem saída. E assim entrou, deu à chave e seguiu. Nem pensou. Limitou-se a conservar, na viagem, o doce feeling que o prazer deixara emprenhado na pele. E antes de estacionar, sorriu, fazendo a tão acostumada inversão de marcha.

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