Desta vez o telefone não toca. Não procuram por mim na
cidade. A manhã esqueceu-se de quem eu sou e confundiu-me com mais uma das que
passam. Mais um dia que se repete noite após noite. Lateja a cabeça doente do
veneno ingerido como elixir da juventude e nada mais há a dizer. Não sobra nada
digno de se contar. Não sobra nada digno de se recordar. Por entre escombros de
pensamentos intermitentes insurge-se o orgulho manchado por quem ousa
atropelar-se nos passos. Ups. Não
esticarei a mão para ajudar na subida. Mas também não dificultarei o regresso à
tona. Só não estarei lá. Não vou assistir a um espectáculo para o qual não fui
convidada.
Prefiro outras plateias. Noutros teatros. De monóculo em rist, aguentarei pacientemente os saltos
de 12 centímetros que anseio por tirar, juntamente com o resto que me tapa. Já
falta pouco. Faremos a saída da praxe, sem ninguém reparar. Deixarei o teu
calor inundar-me talvez pela última vez. Deixar-te-ei mergulhar no meu fulgor e
afogar-nos-emos por segundos, pois é isso que parece. Apenas segundos dura o
nosso amor. Como aquela passagem de nível com o controlador sonolento que
acorda no último minuto mesmo antes do embate, da desgraça. É assim o nosso
amor. Aqueles segundos fugazes e ansiosos que medeiam entre a ultima hipótese e
o medo de não chegar a tempo com o dedo ao botão. Tem de ser hoje que amanhã
podemos já não estar aqui.
É vida num segundo mas não em retrospectiva. É tempo real
num momento do tempo sem realidade. É uma dor que não dói, anestesiada com a
novocaína do sofrimento calcificado. Sim, não são só os ossos que calcificam.
Outras coisas cristalizam com a mesma rigidez. Mas ao menos os ossos partem-se…
Não é possível mudar a envolvência, as circunstâncias, o
cenário da peça. Já se escutaram as três pancadinhas de Molière e vimo-nos
lançados aos lobos, para a frente do palco. Não há fuga possível, só há uma
hipótese. Quem está no palco leva com as luzes da ribalta e só pode fazer o que
lhe compete. Actuar.
Sem comentários:
Enviar um comentário